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Literacia em saúde: o impacto da informação correta nas decisões do doente

Vivemos numa era em que a informação circula à velocidade de um clique. Nunca foi tão fácil aceder a conteúdos sobre saúde e, ao mesmo tempo, nunca foi tão desafiante distinguir informação cientificamente rigorosa de opiniões infundadas. É neste contexto que a literacia em saúde assume um papel central nas decisões do doente e, consequentemente, nos resultados em saúde. 

Literacia em saúde é definida pela Organização Mundial da Saúde como o conjunto de competências cognitivas e sociais que permitem que um indivíduo seja capaz de aceder, compreender, avaliar e utilizar informação em saúde para tomar decisões informadas sobre cuidados, prevenção e promoção do seu bem-estar. Não se trata apenas de ler folhetos ou interpretar uma prescrição médica, implica compreender riscos e benefícios, reconhecer fontes credíveis e aplicar esse conhecimento no quotidiano. Um doente com elevada literacia em saúde consegue, por exemplo, perceber a diferença entre um efeito secundário comum e um sinal de alarme, compreender a importância da adesão terapêutica e questionar de forma fundamentada as opções de tratamento apresentadas. Pelo contrário, níveis baixos de literacia estão associados a pior controlo de doenças crónicas e maior utilização inadequada dos serviços de urgência. 

Todavia, a literacia em saúde não depende apenas do indivíduo, depende também da qualidade da comunicação estabelecida com os profissionais de saúde. Comunicação eficaz significa transmitir informação clara, adaptada ao contexto sociocultural do doente, utilizando linguagem acessível e confirmando a compreensão. A comunicação em saúde deve ser bidirecional. Não basta explicar, é essencial ouvir. Quando o médico valida dúvidas, explora expectativas e incentiva perguntas, promove um ambiente de confiança que facilita decisões partilhadas. 

Tradicionalmente, a relação médico-doente era marcada por um modelo paternalista, em que o médico decidia e o doente seguia orientações. Hoje, defende-se um modelo de parceria, centrado na pessoa. Esta mudança não diminui a responsabilidade técnica do profissional, mas reconhece o papel ativo do doente no processo terapêutico. Uma relação baseada na confiança, empatia e respeito mútuo potencia a literacia em saúde. Quando o doente se sente ouvido e valorizado, está mais predisposto a partilhar preocupações, admitir dificuldades na adesão terapêutica e a participar nas decisões. Quando compreende as opções terapêuticas, os potenciais riscos e benefícios, e participa ativamente na escolha, a probabilidade de adesão aumenta. Por exemplo, na gestão de doenças crónicas como diabetes ou hipertensão, o sucesso do tratamento depende em larga medida do comportamento diário do doente. Sem compreensão adequada da doença e sem envolvimento nas decisões, dificilmente se alcançam resultados sustentáveis. 

Assim, defender a literacia em saúde é, em última análise, defender a autonomia. A informação correta, clara, baseada em evidência e contextualizada, permite ao doente deixar de ser um mero recetor de orientações para se tornar um agente ativo no seu percurso de saúde. 

A literacia em saúde não é um luxo académico, é um determinante essencial dos resultados clínicos. Informação correta, comunicação eficaz e uma relação médico-doente baseada na parceria, formam um triângulo que sustenta decisões mais conscientes e que se traduzem em melhores resultados. Investir em literacia em saúde é investir numa sociedade mais autónoma, mais crítica e, acima de tudo, mais saudável. 

Ana Rita Marques

Ana Rita Marques

27 março 2026