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A cegueira dos que não veem

“Nunca um artista é mórbido. Pode dar expressão a tudo. O pensamento e a linguagem são instrumentos de arte para o artista. O vício e a virtude são para ele matéria de arte”.

Oscar Wilde



 

O Ensaio sobre a Cegueira (1995) de José Saramago (1922-2010), cuja leitura aconselharia aos mais visionários deste país, conta-nos uma história fictícia bem romanceada na óptica do seu autor, repleta de ensinamentos e muito actual.

É a narrativa de uma pandemia contagiosa, de origem incerta, sem ser do profético Covid, em que de repente algumas pessoas ficam cegas, ao ponto de terem de ser isoladas da sociedade, em confinamento obrigatório num prédio. Embora cegas, elas acabam por cometer entre si os mesmos vícios das pessoas que veem, tais como: a corrupção, a inveja, o ciúme e a violência. E por isso ele conclui a sua obra com estas palavras: “Porque foi que cegámos? (...) Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.”

Até a Bíblia diz noutra passagem: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis:

“ Nós vemos, o vosso pecado permanece” ( Jo 9,14).

Será este o resultado de uma cegueira atávica, estrutural neste país no passado, e a vitimização de jogos cruzados políticos, partidários, que explicam o nosso atraso, ou a ignorância e aliteracia social, económica, política, religiosa, de um povo, que aprendeu a ler, mas não interpreta nem compreende o que a escola lhe deu com os seus mestres e “doutores”, em leituras enviesadas, que mais estratificaram a sua situação de pobreza mental e moral? 

Certamente para isso contribuíram muitos factores, a que não serão alheias muitas ideologias e idiossincrasias que lhe incutiram. De facto, a cegueira física ou mental é o primeiro pecado, que nos relata a Sagrada Escritura, relativo a um problema de visão: Eva comeu a maçã que Deus proibira de comer, porque a serpente a convenceu de que, caso comesse, os seus olhos se abririam e seriam como o próprio Deus (Gn 3,1-4) .

O Nobel da Literatura sabia-o muito bem e,n a sua óptica de bom oftalmologista, diagnosticava daltonicamente e com hipálages, a doença, mas referia-a a um povo que mal sabia ler, e não o compreendia nas atoardas que disferia aos políticos, nem os professores nas escolas se interessavam em explicá-lo. Por isso somos e temos o que temos – sempre pobres –, cheios de estudos e diplomas, mas sempre atrasados… e alguns a pensar emigrar ou emigraram para fora.

O teólogo José Miguel diz que a maioria dos nossos pecados têm origem naquilo que vemos, ou seja: numa visão deturpada da realidade, em que vemos o mundo somente a partir do nosso egocentrismo, limitando-nos a apontar o mal nos outros, no mundo, e até em Deus, culpabilizando-o das nossas fraquezas e fracassos, sem olhar ao que vendo mal, não corrigimos, ou vendo deformado, não somos capazes de reformular e reconstruir.

Assim nos devia levar ou concitar ao simbólico valor da arte, como à literatura a provocar uma transformação e metamorfose constante. Será esta a Literatura ensinada nas escolas, ou os contos de fada e cantos da Carochinha como se ensinava no meu tempo, ou os encantos da Bela Adormecida de outros tempos?

Toda a narrativa tem uma diegese, que é preciso entender, se não nos pormenores, ao menos no essencial. Saramago, na sua literatura, poderia ter sido um grande mestre, mas teve uma perspectiva envenenada, de cujas consequências ainda hoje sofremos por ser demasiado simplista e ideológica.

Oscar Wilde (1854-1898) dizia: “Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram abaixo da superfície é com risco pessoal que o fazem. Os que leem o símbolo é com risco pessoal que o decifram. O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida”.

Por isso toda a escola tem de ser uma fonte e origem de transformação e metamorfose de sensibilidades e valores, mesmo religiosos, que cimentam os fundamentos da sociedade e abrem o coração aos valores do espirito – animus et anima –, sempre além do visível ou corpóreo, abertos à luz que deve iluminar as trevas de espíritos menos esclarecidos, que, por vezes, abrem clareiras, como focos luminosos a orientar os passos de outros eclipsados pelas suas conquistas, mas nem sempre com objetivos definidos; hipotecam a vida de gerações em visões erradas de progresso sem desenvolvimento consentâneo, equilibrado e razoável. Será assim a nossa pedagogia no futuro?

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Rosas de Assis

18 março 2026