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Cair em si

Escrevo no futuro, mas este texto de crónica foi escrito ainda antes da tomada de posse do novo Presidente da República. Não sei que palavras vai proferir, que alento dará aos portugueses. Apesar disso, tenho esperança no que possa vir a fazer, que é mais importante do que toda a proclamação de intenções. Estas, ainda que sinceras e promissoras, podem representar pouco.

A escolha foi nossa, ainda que nem todos possam estar ainda convencidos. Fui dos que apostou na personalidade que se apresentou ao eleitorado com vontade genuína de fazer diferente e de ser teimoso o suficiente para fazer cumprir o que faz falta à vida dos portugueses. É verdade que não foi eleito para governar, mas como Presidente de todos os portugueses pode sempre influenciar decisivamente para que o país seja mais justo, determinado e célere na resolução de problemas que afectam o dia a dia dos cidadãos. Insistiu nas matérias que têm a ver com a saúde que tem vindo a ser proteladas, não sei se por razões ideológicas, se por incapacidade. 

O novo Presidente não foi dos que prometeu dar um murro na mesa, mas convenceu uma parte significativa da população de que iria exigir do Governo soluções. Ninguém melhor do que o mais alto Magistrado da Nação para o fazer. Penso que será bem sucedido no seu querer, que é o nosso, o da grande maioria da população. 

O dono mais novo da quinta há-de querer puxar para si a herança das soluções, governar a coisa pública como se fosse sua – a juventude sempre foi assim –, mas não há como as conversas das quintas-feiras para desfazer desatenções e momentos de rebeldia que não resolvem nada. Para se ser justo na apreciação, não se pode dizer que o afastamento que se tem sentido das soluções que fazem falta e que teimam em não ser implementadas representem uma vida desregregada, dissoluta, ou alguma depressão. Também não há razões para se dizer que se chegou ao fundo do poço, o que seria terrível, mas acho que é preciso que o Governo caia em si, seja por si, seja por que alguém chamará a atenção para o "regresso a casa" e aproveitar a oportunidade. 

O Executivo vai ter que encontrar equilíbrios na nova convivência institucional. Ainda que legítimo, há-de cair em si e verificar que há outras perspectivas a respeitar, seja para ver mais longe, seja por verificar que o respeito democrático é mais forte do que a simples convenção de se ser poder. Talvez assim possa restaurar até a credibilidade perdida. Estou certo de que o novo Presidente vai ajudar a que o Governo caia em si e a que pense na sua função, depressa e bem, para recuperar o atraso. Talvez assim se salve.


 

Os problemas do país são muitos e não há lugar a que se defenda que todos os têm. O Governo tem que concentrar-se em procurar soluções para os resolver. A saúde, como referido, é um dos problemas bicudos a resolver e a que o novo Presidente dará certamente maior destaque. Mas, há-de colocar na ordem do dia também a habitação e o crescimento económico sem o qual grande parte dos problemas se não resolvem. E numa altura em que a credibilidade das instituições ditas democráticas está posta em causa, talvez fosse importante trazer à ordem de trabalhos e de prioridades as questões relacionadas com a Lei Eleitoral. A aproximação efectiva de eleitores e eleitos passa, não tenho dúvidas, pela criação dos círculos eleitorais uninominais. Tem havido ao longo do tempo quem tenha posto o dedo na ferida e tenha apresentado soluções sem que tenha sido ouvido com atenção. A oportunidade é boa para que os responsáveis do país caiam em si.

Luís Martins

Luís Martins

10 março 2026