Há algo de habitual e previsível na forma como os sucessivos governos se levantam dos episódios trágicos. Se não durante as próprias calamidades, pelo menos mal as inundações recuam, os fogos esmorecem, ou a escuridão se ilumina, aparecem os discursos de ocasião, cuidadosamente alinhados tirados do armário político. Então, vêm de enxurrada, como as intempéries, as promessas de tudo. Diz-se que é preciso fazer tudo e que se vai fazer mesmo. Garante-se que, desta vez, nada ficará como antes. E, no entanto, com o passar da maré, tudo fica rigorosamente igual ao que sempre foi e logo se vê.
Estes eventos extremos, climáticos ou outros, vão continuar a existir, mas exigem-se capacidades que ao Estado se impõem para minorar os efeitos e potenciar a recuperação. Mas isso não vai lá com o costumeiro “temos de”.
As calamidades mudam de nome e de cenário, mas as respostas da cartilha política, seja de governos de esquerda ou de direita, mais ao centro ou para o lado, mantêm uma notável coincidência. Num dia foram as cheias na baixa lisboeta, depois vieram outras cheias diluvianas, outros rios, outros planos, sempre anunciados como se fossem inéditos. Depois vêm os incêndios infernais, com resoluções claras, intenções mil, linhas orientadoras a rodos, programas com nomes artísticos e promessas de reorganização total do Estado. Passa a festa, passa a romaria, e fica apenas a fé. Logo há novos incêndios, novas inundações e novos pacotes de medidas, novas garantias, mais planeamentos, mais estudos, mais agir, mais, mais mais…
O ritual repete-se com uma regularidade quase de liturgia: as mesmas frases, as mesmas conversas, criam-se planos, fazem-se avaliações, anunciam-se mitigação de riscos, constituem-se comissões, atiram-se com as tão pomposas, quão tantas vezes ineficazes, leis-quadro, já para não falar dos famosos livros brancos e a necessidade de reformas. Mais depressa se reformam as palavras do que se age. A gaveta deve ser o compartimento mais utilizado para aquelas.
Já só nos resta reagir. Reagimos sempre e, no fim, surgem sempre os diagnósticos tardios: falhou a coordenação, faltou comunicação, não havia meios suficientes, não se planeou. O que falta mesmo é aprender a lição.
Talvez o Eça de Queirós não ficasse surpreso; ao revisitar As Farpas (obra que agrega textos daquele), apercebemo-nos angustiados que o país de hoje pouco ou nada divergiu na substância entre o que se proclama e o que se executa desde finais do século XIX. Os governos sucedem-se, os programas exaltam-se, as alianças mudam, mas a prática permanece acomodada ao desenrascanço e à ausência de antecipação. Mudaram os séculos, modernizaram-se os discursos, mas fazer é que morre na praia.
Mas também quando o Estado já só fala com os cidadãos através de máquinas, de linhas automáticas, de plataformas que prometem eficiência e entregam distância, pouco se deve esperar num país a várias velocidades que não é conhecido dos corredores privilegiados do Estado Central e que se vai sentindo abandonado, a não ser para pagar impostos ou votar. Talvez seja aí, nesse afastamento persistente entre poder e realidade, entre anúncio e execução, que se compreenda a razão de muitos começarem a escutar quem grita mais alto e promete soluções simples para problemas que o sistema insiste em complicar. E nem os fáceis anúncios de milhões, que depois ou não aparecem, ou são de acesso condicionado, ou desaparecem como água em areia, parecem ser suficientes para um país, paciente, mas cansado, que antevê que o que se repete ciclicamente, não são as tragédias naturais, mas a forma como se promete sempre tudo para, no essencial, não mudar nada.
Será esta a causa do drama do país em, sentindo-se abandonado, estar a escutar mais os extremos? E tantos a assobiar para o lado.