Desde muito cedo me habituei a ouvir e escutar a voz de Deus expressa em sinais de bondade e de prodigalidade com que nos contempla. Por vezes, até demasiado providencialista, tudo atribuindo a Ele, mesmo a nossa incompetência, preguiça, falta de dotes, mas nem sempre ouvindo (Gerausche Gottes – ruídos, rumores de Deus), ou agradecer os nossos dotes e benefícios.
Seja como for, somos despertados, de vez em quando, por tragédias,que atribuímos à Natureza magoada por muitos atentados contra ela,com atropelos ambientais, intempéries, cheias, incêndios etc., onde nos pretendemos eximir de respnsabilidades…
Fala-se em consequências negativas, mas esquecem-se os atentados brutais de guerras, que pretendemos resolver com diplomacia, o degelo nos polos e asfixia da atmosfera, mas os elefantes continuam a disferir pólvora, matar homens… e nós a consumir gases, efeitos de estufa da nossa comodidade e conforto. Onde estamos no meio de tudo isto? Que significa para a nossa vida mortal, frágil e vulnerável?
É curioso como grandes génios da humanidade tentaram, através da arte, exprimir as suas dores e sofrimentos: Beethoven(1770-1827), nascido em Bona, e viveu em Viena desde 1792, onde conheceu ainda Mozart, na Oitava Sinfonia, entre outras razões, tentou exprimir a dor de um seu sobrinho Carlos que adotara, após a morte de seu pai, irmão do Mestre. Muito o fez sofrer com os seus desvarios. Mexeu até com a sua veia artística e acabou por morrer sem ver a mudança radical do sobrinho, trocando as salas de bilhar pelas aulas. Após a morte do tio, vendeu todos os bens e património artístico por qualquer preço… ao desbarato, sem qualquer apreço pela sua memória. Mesmo assim, Beethoven, na Nona Sinfonia - um Hino à Alegria, ou (Liberdade no original) celebrará a apoteose da vida, unindo uma multidão de sons, corais e sinfónicos, em harmonia, numa sublimação da vida da fraternidade telúrica entre os homens, ele que rosnava com todos, e sem muita sorte na conquista do coração feminino, olhado mais platonicamente… intocável.
Completamente surdo, com a doença do acúfeno, Beethoven captou o verdadeiro sentido e sensibilidade de crente, como hino à vida, reconhecendo a transcendência, bondade divina e “coração do planeta”. Insensível aos ruídos do mundo, nunca viveu como um exilado, aberto às transcendências de Deus e às suaves melodias da humanidade, sem se perturbar com a ideia da morte, transformando todo o crucial do seu sofrimento numa mística: “tudo devo a mim próprio, à fraternidade do género humano e ao Todo-poderoso. “A felicidade como a salvação conquistam-se através do esforço que o quotidiano põe nas mãos do ser humano, neste mundo que não é o Éden, mas, por vezes, um vale de lágrimas… A sua surdez não foi uma tragédia, porém, um milagre. Calaram-se os ruídos do mundo, para ouvir apenas as do seu interior “as harmonias do céu”, reconhecendo mesmo antes de morrer: o espírito do homem, inconquistável até ao fim”(Cf cit. de Bártolo Campos, in Pessoas e acontecimentos p. 36)
A Nona Sinfonia é um “ testamento de amor”. Sede abraçados pelo amor!...
Logo alguns dirão que se trata de “ópio”, digo:talvez a consciência de Deus, de que solicitava apenas a “misericórdia do perdão”.
Todos os “sinais”, como os “ruídos” são epifânicos. Têm uma mensagem, mas só os mais atentos os poderão entender,embora sem compreender… O génio é uma outra voz, íntima e profunda, refletida como espelho e explosão da alma do compositor.
A arte é como um diálogo na fusão de horizontes: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14) que deve transfigurar-se pela Luz que recebeu como fonte divina autêntica, refletida, a iluminar para outros.
No meio das calamidades, da poluição ruidosa e ambiental, precisamos do silêncio interior, talvez de mudar o sabor, e a cor da nossa pele, de hábitos coçados e cansados para ouvir a voz menos comum, com palavras gastas da tradição, que não é “a adoração das cinzas, mas o preservar do fogo”, desafiados sempre a viver noutra direção, essa que é a expressão da alma (animus et anima) onde, por vezes, uma desfalece, em detrimento da outra,mas ambas constituem a essência humana. Compreenderemos assim a nossa vida, mesmo no meio das lágrimas e sofrimentos, cujo sentido não entendemos agora?