Quando, há uns meses, escrevi sobre o impacto das alterações climáticas na saúde mental das populações, estava longe de imaginar a tragédia relacionada precisamente com um fenómeno climático que se viria a abater sobre o nosso país. O que então parecia um tema distante ganhou, de forma abrupta, rostos, nomes e uma história para contar.
Hoje, as alterações climáticas deixaram de ser apenas uma questão ambiental para se afirmarem, de modo inequívoco, como um determinante de saúde – e, de forma particularmente sensível, de saúde mental. Eventos extremos, como a sucessão de tempestades que teve particular impacto na zona centro do país, atingem diretamente a perceção de segurança, a estabilidade quotidiana e o sentido de continuidade das comunidades.
Vimos pessoas que perderam o trabalho de uma vida inteira. Casas construídas ao longo de décadas, pequenos e grandes negócios familiares, terras cultivadas por gerações, que não representavam apenas bens materiais, mas identidade, história, pertença. Com o seu desaparecimento, não se perderam apenas os abrigos e o sustento económico; com ele partiram uma narrativa pessoal, um projeto existencial. A reconstrução física, ainda que possível, não acompanha automaticamente a reconstrução emocional.
Também particularmente sensível é a situação de pessoas migrantes que tinham chegado ao nosso país em busca de segurança, oportunidade ou um novo começo e que encontraram, em vez disso, a morte. Nestes casos, a tragédia adquire contornos de rutura absoluta: sonhos interrompidos, famílias distantes privadas de despedida e a dor de nomes que correm o risco de se tornarem apenas estatística.
No entanto, muito para além dos números, dos relatórios e das imagens de destruição, há uma dimensão profundamente humana que marca estas tragédias: as vidas perdidas no rescaldo desta tempestade. Algumas pessoas não morreram no momento do temporal, mas depois dele – ao tentar reparar telhados arrancados, ao remover destroços, ao ajudar vizinhos, amigos ou mesmo desconhecidos, num esforço urgente de restabelecer uma normalidade que já não existia. Morreram no gesto de reconstruir e no impulso de solidariedade. Essas perdas deixam uma marca coletiva particularmente dolorosa, gerando em quem fica um misto de orgulho, gratidão e um sofrimento difícil de elaborar. A sensação de injustiça mistura-se, muitas vezes, com culpa, incredulidade e revolta – emoções complexas que dificultam o processo de luto e aumentam o risco de sofrimento psicológico prolongado.
Naturalmente, nestes contextos o impacto gerado na saúde mental dos envolvidos ultrapassa a reação imediata ao desastre. Fala-se de reconstrução, mas reconstruir não é apenas levantar paredes. É refazer sentidos, reorganizar o quotidiano, aprender a habitar novamente um lugar onde algo irreversível aconteceu. Neste processo surgem, muitas vezes, lutos prolongados, sentimentos de desorientação, perturbações do sono, ansiedade, quadros depressivos, rutura dos vínculos com o lugar vivido, fadiga perante sucessivas decisões e uma hipervigilância constante que dificultam o regresso à normalidade.
O verdadeiro desafio começa agora e vai estender-se por muito tempo: cuidar dos que ficaram. Não apenas do património e do sustento que precisam de ser reerguidos, mas das pessoas que terão de continuar a viver onde a tempestade não desapareceu totalmente – porque permanece, em silêncio, dentro delas.