Quem neste domingo reparar em alguns suportes de publicidade das nossas cidades deparar-se-á com um cartaz que diz: “A violência no Sudão não faz manchetes, mas é real” – em Braga, por exemplo, encontra-se um na Avenida da Liberdade. O propósito é pedir donativos para a UNICEF, a agência das Nações Unidas responsável por prestar ajuda a crianças em todo o mundo.
A afirmação do cartaz é exacta. Por causa de uma guerra civil que, desde Abril de 2023, tem provocado dezenas de milhares de mortos, o Sudão vive presentemente uma das piores crises humanitárias do planeta. Apesar de as Nações Unidas e diversas Organizações Não Governamentais se empenharem em chamar a atenção para os contornos da tragédia imensa que tem estado a devastar o Sudão, os meios de comunicação portugueses têm-lhe prestado uma escassa ou nula atenção.
Um relatório intitulado “Uma guerra contra o povo – O custo humano do conflito e da violência no Sudão”, enviado pela organização Médecins Sans Frontières / Médicos Sem Fronteiras (MSF) às redacções dos media nacionais no dia 22 de Julho de 2024, dava conta de como a guerra no Sudão tinha causado “o colapso total da protecção dos civis, com as pessoas a enfrentarem violência indiscriminada, mortes, tortura e violência sexual num contexto onde, também, ocorrem persistentes ataques a trabalhadores de saúde e a instalações médicas”.
As consequências do drama sudanês eram devidamente expostas: “Nos centros urbanos, em particular, os combates entre as partes em conflito estão a causar mortos e feridos de forma cega – são milhares de homens, mulheres e crianças”. Com a descrição do que se estava a passar vinha um apelo às partes em conflito no Sudão para “facilitarem a expansão da ajuda humanitária no país e, acima de tudo, a pararem esta guerra sem sentido contra as pessoas, pondo fim imediato aos ataques contra civis, infra-estruturas civis e áreas residenciais”.
Apesar da evidente gravidade da tragédia, no dia seguinte, o documento não mereceu qualquer referência nos quatro diários portugueses de difusão nacional. Sem uma menção nos jornais, as hipóteses de haver notícias televisivas frequentemente diminuem. Nos quatro canais de informação em contínuo, o desastre sudanês não ocupou os espaços noticiosos.
Segundo na altura me transmitiu Dulce Furtado, directora de comunicação da organização internacional médico-humanitária, o relatório “Uma guerra contra o povo – O custo humano do conflito e da violência no Sudão” apenas foi referido em várias peças noticiosas da agência Lusa, numa notícia difundida pela Rádio Renascença, noutra publicada na plataforma Notícias ao Minuto e, no dia seguinte, numa peça emitida no Jornal 2, da RTP2, seguida de uma entrevista em directo com o director-geral da MSF em Portugal. Muito pouca coisa. A excepção televisiva, já agora, merece ser sublinhada para distinguir a qualidade do Jornal 2.
Basta atentar no eco que têm ou não os comunicados de imprensa da organização Médicos Sem Fronteiras para se compreender que o mapa dos conflitos e guerras, dos esforços para os fazer cessar e do trabalho humanitário que tenta minorar as suas consequências suscita uma atenção extraordinariamente desigual. Para alguns países e continentes não se olha, de outros o olhar não se desvia.
Qualquer país africano apenas ocasionalmente é objecto de um módico de interesse – mesmo os de língua oficial portuguesa. É notório o desdém dos media nacionais, por exemplo, pela situação em Cabo Delgado, Moçambique. Alguns grandes conflitos que ocorrem em outras zonas do planeta também são, de um modo geral, ignorados.
“A violência no Sudão não faz manchetes, mas é real”, diz o cartaz da UNICEF. Há três dias, um porta-voz do organismo afirmou que o Sudão é talvez o pior lugar para hoje uma criança crescer e ter esperança no futuro [1]. Garantiu ele que, se parássemos para pensar no sofrimento das crianças e das mulheres sudanesas, não conseguiríamos dormir à noite. As estimativas para 2026 são, de facto, terríveis: mais de 825 mil crianças podem vir a sofrer de desnutrição aguda.
[1] Monica Grayley – “Líderes internacionais precisam olhar para as vítimas do Sudão, diz porta-voz do Unicef”. ONU News, 19 de Fevereiro de 2026. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/02/1852427