A Quaresma é um tempo litúrgico que se compreende plenamente quando vivido em Igreja. Os propósitos pessoais são importantes, mas apenas uma sintonia com toda a Igreja testemunha o seu verdadeiro significado. Somos sempre um Povo de Deus que caminha, e esta época favorável recorda a caminhada que todo o Povo de Israel realizou. Daí a importância da mensagem do Papa, que aponta caminhos conjuntos. O tema para este ano é: “Escutar e Jejuar. Quaresma como tempo de conversão”.
No seu desenvolvimento, Leão XIV explicita três palavras: Escutar, Jejuar e Juntos. Não faltarão comentários sobre a escuta e o jejum, mas quero centrar-me no "Juntos". Esta palavra foi suficientemente desenvolvida no contexto do Sínodo e é fundamental que não seja esquecida neste período em que a Igreja se comprometeu com a implementação do Documento final, devendo ser dada uma interpretação integral.
Há um itinerário tradicional que continua a revestir-se de grande atualidade e de muitas interpelações novas. A Palavra que se escuta vem das páginas da Sagrada Escritura, mas também deve abrir-se à voz do outro, particularmente nas suas necessidades, materiais e espirituais. O jejum, que tem valor em si mesmo e está muito esquecido, é uma prática que o Papa sugere ampliar para incluir o cuidado concreto com o uso da palavra nas nossas relações com os outros. Há coisas que não podemos calar, mas também há palavras de murmuração e calúnia que não deveríamos tolerar. Hoje, mais do que nunca, a língua deve ser moderada, e o que ela expressa em relação aos outros deve ser muito pensado e refletido, interrogando-nos se estamos a ajudar ou a prejudicar. “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.”
Gostaria, porém, de me fixar, particularmente, na terceira palavra do Papa: Juntos. Temos afirmado que caminhamos juntos e procurado discernir, no Espírito, o presente e o futuro da Igreja. Estamos, talvez, a negligenciar a grande verdade de que a aventura humana deve sempre ser interpretada lado a lado, não como vidas paralelas e desconhecidas, mas como vidas que entrecruzam corações e vontades. Vidas que encerram tudo o que são. Nascemos para ser um único Povo que cresce como um único Corpo, onde circula a vontade de crescer juntos.
A Quaresma, diz o Papa, realça a dimensão comunitária da Palavra e da prática do jejum, mas vai mais longe. “A conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.”
A Quaresma deveria ser capaz de nos estruturar para uma vida em comum, onde cada um olha para as suas necessidades, mas não busca a felicidade sozinho. Não somos egoísmos somados, por muito bons que sejamos. Não deveria ser utopia para os cristãos a consciência de que, assim como Cristo deu a vida por nós, também nós deveríamos estar disponíveis para nos gastarmos uns pelos outros. A caridade não se restringe a meros gestos de doação de coisas; é muito mais do que isso.
As nossas comunidades necessitam deste espírito novo que coloca o amor concreto, talvez silencioso, em exercício. Não deveríamos ser apenas uma associação com fins religiosos ou sociais. Tudo isto deveria acontecer como expressão de um único coração e de uma só alma. Nem todos ousarão acreditar no amor mútuo. Bastarão poucos, mas precisamos de verdadeiras células de ambiente, a começar pelas famílias, para alcançar todos os âmbitos humanos. Quase sempre, a presença dos cristãos no mundo do trabalho ou do convívio é anódica, inócua, sem capacidade para influenciar.
Olhar para a história da Igreja significa reconhecer que, nos momentos de maiores crises, surgiram os grandes santos. E a mesma história confirma que não estavam sozinhos. Junto a eles existiam outros apaixonados pelo mesmo amor a Cristo, que o testemunhavam entre si. Hoje, a partir do Papa São João Paulo II, começamos a falar da santidade do “nós”. É o “nós” que mostra Cristo vivo e operante.
A Páscoa não pode ser apenas a celebração de um evento histórico; deve recuperar o significado de que Cristo é de “ontem, de hoje e de sempre”. Um Cristo vivo, quase visível, palpável, que interpela ou até incomoda. Só verdadeiramente “juntos” celebramos a Páscoa.