A metáfora de “país à beira-mar plantado” foi-se sedimentando no imaginário cultural português como abreviatura poética da nossa autoimagem coletiva, a de um território exíguo e periférico, debruçado sobre o Atlântico, “onde a terra se acaba e o mar começa”. A essa imagem juntou-se o retrato moral de um povo trabalhador, acolhedor e orgulhoso das suas raízes, sem resvalar para uma intolerância que julgávamos confinada a outras geografias. O Estado Novo viria a completar essa narrativa com a sinistra fórmula do “orgulhosamente sós”, glorificando o isolamento como virtude e a desconfiança como princípio. Desde há séculos, país de emigração e de partida, gostamos também de nos ver como povo capaz de se integrar em qualquer latitude e de conviver pacificamente com o outro.
O país real nunca coincide com a nação dos contos de fadas, mas por cá essa distância é cada vez maior. Nas últimas legislativas, o Chega afirmou-se como a terceira força política, com 1.437.887 votos, ou seja, 22,76% do total, constituindo a segunda maior bancada parlamentar, com 60 deputados. Nas recentes presidenciais, André Ventura angariou mesmo 1.739.745 votos na segunda volta (33,17%). Nos círculos da emigração, a extrema-direita obteve 26,15% nas legislativas e 50,81% nas presidenciais, num contexto de abstenção massiva além-fronteiras que chegou aos 77,76% e aos 95,17%. A diáspora não teve um peso decisivo, mas o seu voto ganhou um relevo simbólico desproporcionado. É sempre mais confortável encontrar um bode expiatório. Como sublinha Victor Pereira (O voto dos emigrantes e o preconceito, Público, 15/02/26), o problema não são “os emigrantes”, mas a forma como sobre eles projetamos as nossas inquietações.
Em apenas década e meia emigraram 1.235.000 compatriotas (Observatório da Emigração, 2010-2024), juntando-se aos mais de dois milhões espalhados pelo mundo, sem contar com os titulares de dupla nacionalidade ou os lusodescendentes sem passaporte português. No mesmo período, passaram a residir no nosso país mais de um milhão de cidadãos estrangeiros. Em 2010, residiam legalmente em Portugal 445.262 imigrantes; em 2024, esse número subiu para 1.543.697 (AIMA/SEF). Já não é possível vivermos isolados. Num mundo atravessado por fluxos permanentes de pessoas, capitais, informação e conflitos, as fronteiras são cada vez mais porosas. Fenómenos globais não se resolvem apenas com medidas locais. Todavia, é sempre mais simples culpar do que compreender. Preserva-se a narrativa nacional, alimentando a ilusão de que todos os nossos males são causados pelo vizinho com quem não partilhamos a nacionalidade, religião, cultura ou cor de pele. É nesse terreno que o racismo prospera.
Assim, os episódios recentes ocorridos no Estádio da Luz ganham outra densidade. Independentemente do que se terá passado entre os dois jogadores, há um dado incontornável: o racismo não nasce no relvado nem se esgota num lance polémico. Está disseminado. Nas bancadas, nas redes sociais, nos espaços de comentários de alguns jornais, mas também na rua, no quotidiano de conversas aparentemente banais. Num episódio de contornos planetários, a comunicação institucional esteve longe de ser exemplar. Defender a presunção de inocência de um jogador é legítimo; escamotear a gravidade de comportamentos xenófobos não o é. Enquanto se apuram os factos até às últimas consequências, cabe ao clube cooperar com as autoridades e identificar eventuais responsáveis (jogadores, funcionários ou adeptos) e aplicar as medidas que se impõem. Por seu turno, o mundo do futebol faria bem em não concentrar a sua atenção num único estádio, mas no que se passa todas as semanas em tantos outros recintos do país. E a comunicação social, quando tiver desligado os seus holofotes para este caso, deveria sujeitar a igual escrutínio o que se escreve nas caixas de comentários das suas notícias. Não são os exemplos que faltam. O que se passou na terça-feira foi gravíssimo – algumas imagens das bancadas não deixam margem para dúvidas – mas o maior perigo consiste em pensar que se trata de um caso isolado neste país à beira-mar desencantado.