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A palavra como casa do humano: confiança, verdade e futuro comum

A palavra é talvez a coisa mais íntima que temos à mão. Não é só um meio para trocar recados: é um lugar onde nos damos a conhecer. Quando alguém fala a sério, não está apenas a despejar informação; está a expor-se, a comprometer-se e, muitas vezes, a oferecer um pedaço do seu mundo interior. Por isso desejamos que as palavras sejam verdadeiras: porque, no fundo, a palavra transporta a pessoa. Há discursos bem feitos, elegantes, até brilhantes, mas que deixam um travo a vazio quando falta integridade, quando o que se diz não bate certo com o modo de estar no mundo. Pelo contrário, a palavra de quem procura ser inteiro ganha uma beleza própria, porque a coerência dá espessura ao sentido.

Escutar entra aqui como um ato de reconhecimento. Dar a palavra a alguém é aceitar que o outro pode trazer algo que nos falta e é já admitir que a verdade pode vir de fora de nós. E há um sinal quase elementar dessa intimidade: o nome. Cada pessoa tem um nome único; sabê-lo, pronunciá-lo com respeito, não é uma formalidade. É um modo de dizer: eu vejo-te, eu considero-te. O nome não vale pelas letras, vale pela presença que convoca e pelo rosto a que aponta. A mesma frase pode aproximar ou ferir, levantar ou humilhar, conforme o tom e a intenção com que é dita.

Esta dimensão pessoal ajuda a perceber por que motivo a mentira é mais do que uma falha factual. Mentir ou dizer apenas meias-verdades é fabricar ruído, quebrar confiança e instalar confusão no espaço comum. Quando a palavra passa a ser estratégia de imagem, começamos a viver de aparência: interessa mais o impacto do que a realidade.

O silêncio, aqui, deixa de ser falta de palavras; pode tornar-se disciplina interior, espaço de verdade, recusa de fazer de si mesmo o centro de tudo. A verdade, mesmo quando é dura, ilumina. Mas há quem prefira a cegueira confortável, precisamente porque a luz pede mudança e responsabilidade. E, em tempos de tanta conversa e tão pouca substância, dizer a verdade pode ser arriscado e, ainda assim, necessário. Nem todos querem ouvir o que desinstala, poucos gostam de ser chamados ao que deveriam ser.

Além disso, cada vida é um diálogo interior permanente. Quem se respeita aprende a falar com verdade a si mesmo e de si mesmo e, por arrasto, a falar com verdade aos outros. Quando expulsamos a verdade do nosso íntimo, seja por cansaço, seja pelo excesso de ruído à nossa volta, ficamos reféns de versões, justificações e encenações. E isso tem um preço coletivo. A linguagem permitiu-nos contar histórias, prometer, coordenar esforços e transformar pequenos grupos em sociedades. No entanto, é difícil não notar que se perdeu valor na “palavra”, sobretudo na “palavra dada”, entendida como um compromisso que se cumpre mesmo quando ninguém está a ver.

Quando a palavra deixa de vincular, a confiança encolhe e tudo fica mais instável. Multiplicam-se quebras de lealdade, crises nas instituições e roturas nas famílias. Agravam-se conflitos, precariedades e ressentimentos. Cresce, no cotidiano, a ansiedade produzida pela imprevisibilidade e pela suspeita. Não admira que tanta gente fale de vazio e de cansaço: se a palavra se reduz a performance, perde a capacidade de fundar mundo e de sustentar comunhão. Uma sociedade que já não acredita no que ouve começa a proteger-se com cinismo e a tratar o outro como potencial ameaça.

Recuperar o valor da palavra não é moralismo. É restaurar uma base ética sem a qual a convivência se degrada. Honrar a palavra é reconhecer que falar é agir: quem promete fica ligado ao que prometeu; quem nomeia reconhece; quem testemunha constrói memória; quem escuta abre espaço para o real. Neste horizonte, a autenticidade não é um adorno, é uma exigência humana. Sem verdade, a palavra torna-se leve e gasta; e uma pessoa “sem palavra” torna-se perigosa, porque deixa de ser fiável. Num tempo em que sobram mensagens e faltam compromissos, a tarefa é simples e exigente: reaprender a dizer com verdade, a calar com humildade e a cumprir com fidelidade, para que a palavra volte a ser lugar de humanidade, de confiança e de futuro.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

21 fevereiro 2026