Penso que a resposta será positiva para a esmagadora maioria das pessoas, porque se eu não me preocupar com a gestão do meu orçamento familiar, ninguém o irá fazer por mim. Nos últimos tempos tem-se falado muito em literacia financeira, gestão orçamental, o que é bom, porque denota que as pessoas começam a preocupar-se com esta matéria. A taxa de poupança das famílias portuguesas tem vindo a crescer (situava-se em 12,5% no fim do terceiro trimestre de 2025, mesmo assim ainda abaixo da média europeia de 14% em 2024), o que é um bom sinal. De facto, há algumas questões que as famílias não podem esquecer: 1) uma boa gestão do orçamento familiar pode contribuir muito para melhorar a situação financeira familiar; 2) existe uma tendência real das pensões de reforma virem a ser progressivamente mais baixas para os que se reformarem daqui a uns anos, pelo que, senão prepararmos hoje o nosso futuro financeiro, podemos vir a confrontar-nos com uma dramática redução do nosso rendimento disponível, o que nos forçará a diminuir o nosso nível de vida. Saber exatamente os rendimentos que temos e como gastamos esse rendimento e o que aforramos a pensar no futuro é absolutamente fundamental. Quando falamos em liberdade, pensamos muitas vezes em liberdade política, nos nossos direitos fundamentais, como sejam exercer o direito de voto, poder escolher sem constrangimentos uma orientação política, poder expressar as nossas ideias sem receio, etc. Mas temos alguma tendência a não considerar uma dimensão que se prende com a liberdade financeira. Sempre que pedimos dinheiro emprestado, ou contraímos um empréstimo, estamos a alienar a nossa liberdade financeira. De facto, efetuar um crédito junto de uma instituição financeira, um Banco por exemplo, para aquisição de uma habitação (mas pode ser para crédito ao consumo, comprar um automóvel, financiar umas férias de elevado valor, etc.) traduz-se em assumir o compromisso de, durante o prazo de vigência desse empréstimo (que no caso do crédito à habitação pode chegar aos 40 anos), iremos pagar em prestações (mensais, normalmente) o capital e respetivos juros e comissões, até integral reembolso do empréstimo. Por exemplo, do meu rendimento disponível mensal 750€ ficarão afetos ao pagamento desse crédito. A minha liberdade financeira fica afetada no exato valor desse montante e durante todo o tempo em que durar o empréstimo. Dos 2.000€ de rendimento mensal do agregado familiar, sobram agora 1.250€ para o pagamento das demais despesas que essa família tem de suportar para sobreviver (alimentação, água, energia, comunicações, saúde, educação, etc.). Se for contraindo outros créditos, entretanto, cada vez fico financeiramente mais condicionado e a minha liberdade financeira vai diminuindo. Ao invés, se optar por restringir o recurso ao crédito, optando por comprar o mais que puder com os meus rendimentos, essa liberdade mantém-se.
Contudo, o recurso ao crédito é em muitos casos inevitável, e não deve ser encarado como uma má solução, porque, como é exemplo, o crédito à habitação, para muitos pode ser a única forma de conseguirem tornar-se proprietários de uma casa. O crédito tem essa vantagem de permitir antecipar a concretização de um desejo. Se não fosse o recurso ao crédito, teria que aguardar, por exemplo, 5 anos para comprar um automóvel, ou 30 para adquirir uma habitação
Existe assim uma dialética entre uma trilogia de conceitos que são a poupança, o investimento e o crédito, que não pode ser ignorada por cada um de nós e, a forma como resolvemos a equação que envolve essas variáveis, vão ser decisivas para o nosso futuro, financeiramente falando. Mas isso já será um tema para um dos nossos próximos artigos.