O futebol português voltou a oferecer um espetáculo de alta intensidade no recente encontro entre o FC Porto e o Sporting CP, a contar para a Primeira Liga. No entanto, para além do resultado e da emoção própria de um clássico, ficaram registados episódios que não dignificam o jogo nem parte dos seus protagonistas.
O acendimento de tochas, com fumo que compromete a visibilidade e o normal desenrolar do jogo, não pode ser tratado como simples “ambiente”, pois afeta a segurança e a qualidade da competição. Da mesma forma, a exposição de provocações no balneário visitante, a retirada da toalha destinada à secagem das luvas do guarda-redes adversário ou a ocultação de bolas por parte dos apanha-bolas junto à baliza para impedir reposições rápidas nos minutos finais são gestos que nada acrescentam ao jogo, revelando falta de desportivismo e empobrecendo o espetáculo.
O futebol profissional não é apenas um jogo. É um fenómeno cultural, económico e social com enorme impacto público. Milhões de jovens acompanham estes encontros e formam a sua perceção do que é competir, vencer e perder. Se o exemplo transmitido for o de que “vale tudo para ganhar”, o prejuízo ultrapassa as quatro linhas. Este é, por isso, um momento oportuno para reflexão coletiva.
Às direções dos clubes exige-se liderança clara. Liderar não é apenas organizar equipas ou negociar contratos, é definir cultura institucional. Clubes com história e dimensão nacional têm responsabilidade acrescida na promoção de comportamentos éticos. A vitória não pode justificar práticas que mancham a credibilidade do jogo.
À Liga Portugal, enquanto entidade organizadora, compete reforçar mecanismos de supervisão, prevenção e responsabilização. Regulamentos existem; importa aplicá-los com consistência, transparência e equilíbrio. A confiança dos adeptos depende da perceção de que as regras são iguais para todos.
Aos adeptos, que são a alma do futebol, cabe compreender que apoiar não significa prejudicar. O espetáculo melhora com paixão e apoio positivo, não com ações que interrompem jogos ou criam riscos. O futebol português precisa de estádios vibrantes, mas também seguros e respeitadores.
Erradicar estes comportamentos não é uma questão moralista, é uma questão estratégica. O futebol nacional ambiciona maior competitividade internacional, mais receitas e novos públicos. Nada disso será possível se persistirem imagens que afastam famílias e jovens.
Ganhar com mérito, competir com intensidade e respeitar o adversário não são conceitos incompatíveis; são a base do desporto. O futebol português tem qualidade e história suficientes para se afirmar pelo que acontece dentro de campo, não pelo que o prejudica fora dele. É tempo de escolher que cultura queremos consolidar.