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A raspar e a derrapar

A água, essência da vida, corre por todos os lados, nesta autêntica estação das chuvas que tem abraçado Portugal (e mais Europa), dissemina preocupações, temores, destruição e até morte. A natureza mostra-se imparável nas aflições que provoca, mas percebe-se que, com mais planeamento e prevenção, a devastação e a desdita poderiam ser atenuadas (a “bacia de retenção” criada às portas de Setúbal, poupou, até ver, esta cidade da fúria das águas). 

O leitor, cansado de espreitar pela vidraça sempre molhada, com as memórias dos dias ensolarados já embaciadas ou esboroadas, estará já porventura com pouca abertura para acolher tanta desgraça, tanto desprazer noticioso. Contando, todavia, com alguma bonomia sua, proponho-me arrastá-lo para uma reflexão sobre um fenómeno negativo, pernicioso mesmo, que parece refletir a endémica tentação de procurar na sorte, no feliz acaso, uma solução para os muitos problemas pessoais, designadamente financeiros, que tantos portugueses têm. 

Refiro-me, em concreto, ao popular jogo da “raspadinha”. Consultada a IA (Inteligência Artificial), retenho que em 2024 a raspadinha gerou 1.848 milhões de euros de receitas brutas para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, representando 58% de todas as receitas dos jogos sociais do Estado. Desta consulta, fico ainda a saber que nesse ano de 2024, a partir de um conjunto diversificado de jogos sociais, a Santa Casa da Misericórdia terá transferido para o estado português 895 milhões de euros, depois direcionados para o apoio de políticas de saúde, desporto e segurança social. 

Data de 1783 (reinado de D. Maria I) o decreto que permitiu à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lançar uma lotaria nacional. O caminho já é longo e a sorte já terá, forçosamente, abraçado muitos compradores da lotaria. 

As causas sociais alimentadas pela lotaria ou agora, primordialmente, pela raspadinha são inquestionavelmente meritórias. A perversa contradição neste fenómeno emerge, todavia, quando facilmente se constata que são predominantemente os mais modestos ou humildes quem alimenta este caudal de receitas da “raspadinha” e jogos instantâneos afins da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. O fenómeno da raspadinha assume visíveis características viciantes, e depauperantes, de consumidores claramente não abastados. Se tal não é hábito seu, estimado leitor, já facilmente terá constatado – quando, por exemplo, tenta comprar um jornal num quiosque ou outro ponto de venda – quão comum é um jogador da raspadinha levantar um prémio para logo de seguida deixar o mesmo valor noutros bilhetes da sorte idênticos ou equiparados, os quais na maioria das vezes não rendem nada. A possibilidade, a esperança, de um prémio imediato alimenta o vício desta espécie de droga.

O comprador típico da raspadinha não joga no casino nem será detentor de ações na bolsa de valores, arrisco facilmente. Exibe rendimento modesto e expectativa cândida na sorte, que raramente vem. Um ou outro exemplo conhecido de quem teve sorte “maior” na compra de um bilhete da raspadinha, alimenta-lhe, e justifica aparentemente, o curso nesta dependência.

Os jogadores com traumas financeiros resultantes da frequência de casinos podem, protegidos pela lei desde há anos, solicitar a sua interdição no acesso a estes espaços. Diversos têm-no feito. 

No caso da “raspadinha” e de outros jogos similares, atenta a timidez ou pequenez da maioria das apostas individuais, esta autoexclusão suscitará menos interesse. Mas da sucessão de várias destas apostas, alimentadas pela expectativa de um arejamento de parcas finanças pessoais, muito humilde cidadão acumula perdas contínuas e significativas a prazo. 

A raspadinha, faz jus ao seu nome, “esfola” sucessivamente jogadores viciados, modestos e desprotegidos.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

14 fevereiro 2026