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O Domingo que nos refaz

A Missa dominical não é um “extra” para quem tem tempo; é o coração batente da semana cristã. Digo-o sem nostalgia e sem moralismos: quando o domingo deixa de ser Eucaristia, a fé vai, pouco a pouco, perdendo corpo. Fica na cabeça como ideia ou no íntimo como sentimento, mas perde aquele lugar concreto onde aprendemos a receber, a agradecer e a recomeçar.

Há uma tentação muito contemporânea de viver a religião à medida do humor: hoje apetece, amanhã não; hoje sigo online, amanhã compenso com uma oração em casa. A oração pessoal é indispensável e o digital pode ajudar; mas nada substitui o gesto simples e exigente de estar em assembleia. A Missa não é consumo espiritual, é pertença. Não nos juntamos porque estamos todos bem ou porque pensamos todos igual, mas porque fomos chamados. E é essa convocação que nos salva do individualismo religioso.

A Missa dominical devolve-nos uma gramática de humanidade. Obriga-nos a sair de nós, a escutar uma Palavra que não escolhemos, a reconhecer a presença do outro: o idoso, a criança inquieta, o vizinho com quem não tenho conversa, o estrangeiro que reza com sotaque. É desconfortável, às vezes. Mas a comunhão não é um ambiente; é um caminho. E o domingo, com a sua repetição, educa-nos na fidelidade: a fé não vive de entusiasmos ocasionais, vive de alianças renovadas.

No centro está a Eucaristia: não um símbolo simpático, mas dom de Cristo que se entrega e nos ensina a entregar. Quem comunga aprende, mesmo sem o saber, uma ética do dom. Aprende que a vida não se possui, recebe-se; e que a alegria mais verdadeira não nasce de acumular, mas de partilhar. Por isso, uma Missa bem vivida não termina com o “ide em paz”; começa aí. A paz é tarefa e a bênção é missão.

E aqui convém dizer uma palavra que, por vezes, evitamos por pudor ou por hábito: não podemos pactuar com esquemas celebrativos que obrigam um sacerdote a celebrar Missas durante toda a manhã de domingo, de hora em hora, como se o presidir fosse apenas “cumprir horários” e “dar vazão” à procura. O presbítero não é uma máquina sacramental, nem a comunidade deve organizar-se como um serviço em série. Ele, sobretudo ele, também precisa de “viver a Missa”: precisa de tempo interior, de repouso real, de oração que o recentre, de preparação que não seja apressada, de um ritmo que lhe permita presidir com verdade e ajudar a assembleia a celebrar da melhor maneira. Quando um padre é empurrado para uma cadeia de celebrações, perde-se qualquer coisa de essencial: a presidência torna-se execução e a comunidade, sem querer, aprende que a liturgia é um produto disponível e não um mistério recebido a celebrar.

Há ainda uma outra dimensão que convém dizer com clareza: o domingo é também um ato de resistência cultural. Reservar tempo para Deus, para a comunidade e para um silêncio habitado é afirmar que o mercado não é o senhor do tempo. É declarar que a agenda não tem a última palavra. É reaprender a gratuidade, essa palavra quase desaparecida, sem a qual a vida humana se torna áspera.

E não, a Missa não é perfeita, porque nós não o somos. Há celebrações monótonas, homilias cansativas, falhas na música e distrações inevitáveis. Mas a fé adulta não depende do brilho do momento. Depende de perseverar no lugar onde Deus prometeu encontrar-nos. Quando me sento num banco e rezo com a Igreja, não estou a dizer que tudo está resolvido; estou a dizer que preciso de ser salvo e que não me salvo sozinho.

Por fim, a Missa dominical tem uma força discreta, mas transformadora, na vida das famílias e das comunidades. Ela cria linguagem comum, oferece referências partilhadas e cura feridas pelo simples facto de nos pôr lado a lado, domingo após domingo, sob a mesma misericórdia. Muitas vezes não “sinto” nada extraordinário. E, no entanto, saio diferente: mais capaz de paciência, mais disponível para servir e mais atento aos pequenos sinais de Deus.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

14 fevereiro 2026