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Somos um país preparado?

1. Há problemas que surgem na vida das Nações, tal como surgem na vida de cada ser humano, que não podem simplesmente ser evitados. São imprevisíveis e como resultam de circunstâncias inesperadas provocam, ou podem provocar, danos impossíveis de antever. Qualquer um de nós o sabe e qualquer um de nós compreende essas circunstâncias, pelo que não é correcto pretender encontrar culpados quando não há culpa humana. Mas uma coisa são os tais problemas imprevisíveis e outra bem distinta são aqueles cujos efeitos decorrem da incompetência, da impreparação, da falta de planeamento ou mesmo da definição de prioridades que não são prioritárias. E neste último caso, ao contrário do anterior, já será normal que questionemos, que façamos crítica e que procuremos perceber o que somos enquanto comunidade e em que medida a nossa acção comum é, ou tem sido, a mais adequada. Vem isto a propósito da tragédia que se abateu sobre muitas regiões do nosso país e da forma como as autoridades locais ou nacionais a ela reagiram. Já todos percebemos, até pelas reportagens televisivas ou pelo relato de familiares ou de amigos que habitam nos concelhos atingidos, que há um sentimento de indignação e revolta quanto às respostas ou ausência delas das referidas autoridades, mas francamente esse não é o único dilema. Bem sei que quem ficou sem casa, sem bens e sem local de trabalho, quer resoluções imediatas e não palavras, contudo há uma questão prévia que não pode continuar indefinidamente sem resposta. Desculpem pois os leitores do Diário do Minho que lhes diga uma vez mais o que penso, mesmo se o que penso não corresponder ao que a maioria pensa. 

Por culpa nossa, permitimos que Portugal seja um país preparado para a festa e não para o rigor. Por culpa nossa, permitimos que gente incompetente e medíocre ocupe lugares de responsabilidade. Por culpa nossa, aplaudimos a inauguração seja do que for sem nos preocuparmos com os custos e a rentabilidade do que é inaugurado. Por culpa nossa, ignoramos o improviso e não exigimos a obra pensada e estudada. Por culpa nossa, valorizamos mais o que acessório em prejuízo do que é essencial. Por culpa nossa, depressa esquecemos o mal que nos atingiu sem nos preocuparmos em evitar ou prevenir o mal que pode de novo surgir. Infelizmente é assim quando há incêndios, infelizmente é assim quando há temporais, infelizmente é assim quando há seca e falta de água, infelizmente é assim em muitas outras situações e circunstâncias. 

No meio de tudo isto esquecemos algo que nunca poderíamos esquecer. Algo que tem tanto de simples, quanto de complicado. A democracia é um regime que só pode verdadeiramente funcionar com cidadãos exigentes, com cidadãos que têm sentido de Cidade, que sabem o que é melhor para o Estado a que pertencem. Só esses cidadãos podem querer os melhores na governação da sua freguesia, da sua câmara municipal, do seu governo regional, do seu governo nacional. Só esses cidadãos podem compreender como o rigor, o planeamento e a prevenção são incompatíveis com o facilitismo, com o jeito imediato que tanto gosto nos dá para superar alguma dificuldade, com o aproveitamento indevido dos recursos públicos. Se assim for teremos futuro, se assim não só teremos presente. Um presente umas vezes melhor, umas vezes menos bom e outras vezes pior, mas sempre e só presente. E quem só vive do presente e para o presente não pode esperar ter autarcas ou governantes que sejam diferentes. 

2. E enquanto vivemos a angústia de um tempo que não tem dado grandes tréguas teremos no domingo a segunda volta das eleições presidenciais. Não que isso seja relevante, mas entendi não me pronunciar. Sou mesmo o único antigo presidente do CDS-PP que se manteve em silêncio, sujeito, como sei, a que este silêncio seja motivo para todo o tipo de interpretações. Das que conheço, por me terem sido transmitidas, umas são plenamente respeitáveis e outras são tão doutamente imbecis que só podem merecer a minha humilde indiferença. Há quem esqueça que a liberdade de falar não é mais importante do que a liberdade de não falar e principalmente quando tantos apressadamente se preocuparam em afirmar a sua existência politicamente inexistente. Mas adiante! Como qualquer cidadão, ou até como um cidadão minimamente atento à coisa política, lamento que estas eleições não tivessem sido aproveitadas para discutir o papel de Portugal na Europa e no Mundo, para reflectir o Estado e as suas reformas, para projectar o papel das comunidades portuguesas além-fronteiras na ajuda que podem dar no desenvolvimento do país, no fundo para irmos para lá da rua em que vivemos. Há quem diga que este é um problema das Repúblicas e que a Monarquia nos permitiria encontrar o que a República não nos pode dar. Respeito a opinião, mas como sou republicano, um republicano católico e conservador, espero e ambiciono mais, muito mais, da República em que vivo. Temo porém, que a futilidade da conversa redonda, gasta e vazia, nos empurre, nos continue a empurrar, para a imensidão do nada. 

3. Uma última nota, que muitos considerarão a despropósito face ao que foi escrito, para vos falar da imprensa, da imprensa regional. Têm sido muitos os testemunhos de lamento sobre a progressiva diminuição de leitores de jornais nacionais. Sinceramente não sei se isso também afecta e se afecta na mesma dimensão a imprensa regional. Não possuo dados que me permitam fazer essa avaliação. Mas uma coisa sei: a imprensa regional e na qual destaco o Diário do Minho é um meio que cumpre um papel insubstituível. Não o digo pelo facto de aqui escrever, mas apenas pelo testemunho que um jornal como este desempenha na ligação com as comunidades locais, ou seja, com as comunidades reais.

Manuel Monteiro

Manuel Monteiro

6 fevereiro 2026