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Lições de uma tempestade

Mais do que um calamitoso episódio de mau tempo, a tempestade Kristin foi um aviso sério, que deixou marcas profundas e perdas irreparáveis: cinco vidas humanas, discretamente somadas ao balanço de um temporal que não pode ser reduzido a simples números ou estatísticas.

Na região centro de Portugal, com especial incidência no concelho e no distrito de Leiria, o vento ciclónico e a chuva suspenderam a normalidade, alteraram a paisagem e deixaram atrás de si um rasto impressionante de destruição, com milhares e milhares de árvores derrubadas, de edificações e telhados destruídos, de estradas intransitáveis, de infraestruturas inutilizadas ou fragilizadas e de muitos outros prejuízos materiais e morais de enorme dimensão.

A Kristin representou para Leiria e arredores um verdadeiro teste de esforço. Um teste à resiliência do território, à robustez das infraestruturas e à capacidade de resposta das instituições a situações de emergência. E mais uma vez o resultado foi negativo, tal como já o fora o dos incêndios de Pedrogão Grande em 2017. Onde se supunha margem de segurança, surgiram fragilidades, onde se acreditava numa pronta e eficaz protecção civil, as pessoas foram deixadas à sua sorte e circunstância, durante demasiado tempo; onde se contava com a excepção, confirmou-se a regra. As alterações climáticas deixaram de ser abstração e passaram a realidade bem concreta, repetida e cada vez mais severa.

Em momentos como este, a primeira resposta vem quase sempre das pessoas e das instituições mais próximas. Da solidariedade de vizinhos, do empenho incansável dos bombeiros, da dedicação de voluntários e do esforço das autarquias, tantas e tantas vezes a operar no limite dos seus meios. Mas também se torna visível algo menos edificante: a descoordenação na chegada de apoios, a escassez de materiais essenciais, a dificuldade em canalizar a ajuda onde ela é mais necessária, isto quando há casas destelhadas à espera de telhas, painéis ou simples lonas de protecção.

Ora, é precisamente nesses momentos que a sociedade civil revela a sua grandeza. Associações e empresas locais, movimentos cívicos e cidadãos comuns podem e devem organizar-se, partilhar recursos, suprir falhas imediatas e evitar que a burocracia prolongue o sofrimento. A solidariedade não substitui o Estado, mas completa-o. E quando a coordenação tarda, a entreajuda torna-se um dever moral acrescido.

É aqui que a tempestade deixa outra lição incontornável. A intervenção das Forças Armadas (F.A.), em particular nas suas especialidades de engenharia, revelou-se tardia. Num cenário como o vivido em Leiria, a sua mobilização atempada poderia ter sido decisiva, quer na rápida desobstrução das vias, quer na estabilização provisória de habitações destelhadas quer, ainda, no fornecimento de geradores, de água potável e de apoio logístico essencial às populações mais afectadas. Não se trata de militarizar a resposta civil, mas de utilizar, sem hesitação, os meios de que o Estado dispõe.

A questão não é a procura de culpados – embora se possa e deva apurar as causas das falhas e atrasos na protecção das populações em calamidades como esta –, mas a aprendizagem institucional. Se eventos desta natureza tendem a repetir-se – e tudo indica que sim –, então a articulação entre protecção civil, autarquias e F.A. tem de deixar de ser excepção e passar a regra. A demora custa tempo e o tempo, nestas circunstâncias, traduz-se em sofrimento evitável e prejuízos acrescidos.

A Kristin recorda-nos, também, que governar o território não é apenas reagir à emergência, mas preparar o futuro. Exige ordenamento responsável, manutenção preventiva, investimento continuado e decisões que raramente rendem aplausos imediatos, mas evitam tragédias anunciadas. E reclama, sobretudo, memória.

A tempestade passou, mas o seu rasto permanece. E anuncia-se a continuação de tempo extremamente chuvoso. Por isso, espera-se que da tormenta não resulte apenas a contabilidade dos prejuízos, mas ainda a determinação de fazer melhor.

Se assim suceder, com a graça de Deus, bem poderemos ser dignos de honra e do privilégio de vivermos no tão cantado (mas nem sempre bem tratado) “jardim à beira-mar plantado”.

António Brochado Pedras

António Brochado Pedras

6 fevereiro 2026