Vivemos um tempo difícil, instável e perigoso, em que a degradação da ordem mundial, a erosão do Direito Internacional e a crise das democracias liberais reclamariam para a Presidência da República figuras de excepção: independentes, lúcidas, experientes e dotadas de verdadeiro sentido de Estado.
Mais do que mera visibilidade mediática ou ruído populista, Portugal precisava de estadistas. Porém, a primeira volta das eleições presidenciais ofereceu-nos um quadro marcado por demasiadas candidaturas banais e por poucas ideias à altura do presente momento histórico.
Num país com graves problemas estruturais na saúde, na justiça e na educação e num mundo cada vez mais hostil aos valores do constitucionalismo democrático, o eleitorado não encontrou, à primeira tentativa, uma solução consensual.
Não obstante, a vitória de António José Seguro na primeira volta não foi um mero acaso – resultou da percepção do eleitorado de que, numa circunstância de incerteza, a sobriedade pode ser uma virtude política importante.
A segunda volta coloca agora, frente a frente, duas visões incompatíveis da chefia de Estado. Dum lado, António José Seguro apresentou-se como candidato independente e tem confirmado, ao longo da campanha, uma efectiva autonomia face ao partido a que está ligado.
E essa independência não é meramente retórica, pois se traduz num discurso contido, respeitador da pluralidade e consciente do papel de presidente como árbitro do regime e garante da Constituição.
Do outro lado, está André Ventura, líder de um partido que se confunde com a sua própria pessoa e com uma agenda política radical, polarizadora e profundamente divisionista.
O seu discurso revela tiques autoritários, hostilidade à diversidade e uma inquietante proximidade a modelos políticos iliberais, incompatíveis com a democracia constitucional portuguesa.
Claramente, um presidente assim não moderaria o sistema: incendiá-lo-ia.
Num momento em que a democracia precisa de contenção e aprofundamento e não de excitação e superficialidade, a escolha é evidente. António José Seguro não se apresenta como salvador da pátria nem como homem providencial, mas sim como alguém hoje raro na política – um homem comum, com as qualidades essenciais de moderação, respeitabilidade, equilíbrio, decência e capacidade, nada desprezível, de cultor de esperança, num tempo de medo e de ressentimento.
Por isso é que se me afigura que votar em António José Seguro não é um gesto de entusiasmo ingénuo, mas antes um acto de responsabilidade cívica.
Num mundo instável como é o nosso, jogar pelo seguro é escolher quem dá provas de proteger a democracia, em vez de a testar até ao limite.