A atual revolução da Inteligência Artificial (IA) promete um futuro de prosperidade sem precedentes, mas também acende um debate crucial sobre os seus riscos existenciais.
Neste cenário de rápida evolução, vozes proeminentes da ciência apelam à cautela e à responsabilidade.
Entre elas, destaca-se Yoshua Bengio, um dos "padrinhos da IA" e vencedor do Prémio Turing, cuja preocupação se centra na nossa capacidade de manter o controlo sobre sistemas de inteligência cada vez mais avançados.
Bengio tem sido um defensor da necessidade de resolver dois problemas fundamentais antes de avançarmos para a Inteligência Artificial Geral (AGI) ou Superinteligência (ASI):
o problema do alinhamento e controlo
e o problema da coordenação política.
O primeiro questiona a nossa capacidade técnica de garantir que uma entidade mais inteligente que o ser humano atuará de acordo com os nossos valores e bem-estar.
Como ele próprio questiona: "Entidades que são mais inteligentes que os humanos e que têm os seus próprios objetivos: temos a certeza de que atuarão para o nosso bem-estar?"
O segundo problema, o da coordenação, foca-se na ausência de instituições globais robustas que impeçam que o poder da IA seja abusado por humanos contra humanos, seja por corporações, governos ou indivíduos mal-intencionados.
A corrida desenfreada por capacidades, impulsionada por interesses económicos e geopolíticos, ameaça ofuscar a prudência necessária.
No entanto, a história da humanidade oferece um poderoso contraponto a este cenário de risco.
A nossa jornada civilizacional é uma crónica de superação, onde a resiliência e a ingenuidade coletiva sempre prevaleceram sobre as forças destrutivas. Desde as ameaças de aniquilação nuclear durante a Guerra Fria, que exigiram uma diplomacia global sem precedentes, até à superação de pandemias devastadoras e a derrota de ideologias totalitárias que procuraram o domínio global, a humanidade demonstrou uma capacidade inata para se unir e inovar face ao Mal — seja ele tecnológico, biológico ou moral.
A preocupação de Bengio não deve ser vista como um prenúncio de derrota, mas sim como um chamado à ação que ecoa a nossa história.
O desafio da IA é o mais recente de uma longa linha de testes existenciais.
A solução não reside em travar o progresso, mas em canalizar a mesma determinação e capacidade de resolução de problemas que nos permitiram vencer os desafios passados.
Se conseguirmos resolver os problemas de controlo e coordenação que Bengio aponta - a IA tem o potencial de ser a nossa maior aliada, impulsionando avanços na saúde, no ambiente e na erradicação da pobreza.
O triunfo da humanidade nunca foi garantido, mas sempre foi conquistado através do esforço consciente e da vontade moral.
A IA representa um novo campo de batalha, mas a arma mais poderosa continua a ser a nossa capacidade de cooperação e de definição de um propósito ético comum.
Assim como no passado, o futuro da IA será moldado não pela tecnologia em si, mas pela nossa inabalável determinação em garantir que ela sirva o bem maior. A história está do nosso lado, desde que escolhamos ativamente o caminho da responsabilidade.