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Entre o céu e a terra

Durante muitos anos, falar da Seleção nacional sénior de andebol de Portugal em grandes competições era falar de esforço, dignidade e pouca recompensa em termos de resultados. Hoje, essa perspetiva mudou — e mudou de forma significativa e definitiva. Os últimos eventos internacionais mostram que Portugal deixou de ser uma seleção simpática para se tornar uma equipa respeitada, competitiva e, acima de tudo, capaz de discutir jogos com qualquer adversário. Mesmo o percurso dos nossos atletas de referência não se fica pelo consumo interno, mas espalhados por esses palcos europeus, nos melhores campeonatos.

O Europeu de 2020 foi o primeiro grande sinal. O 6.º lugar não surgiu por acaso nem por sorte: foi fruto de um grupo ambicioso e organizado. Portugal jogou de igual para igual com potências históricas do andebol europeu e provou que podia ir mais longe do que simplesmente “participar”. A partir daí, a fasquia subiu - e bem – para patamares mais ambiciosos. Em 2024, na Alemanha, a seleção confirmou que o que aconteceu em 2020 não tinha sido um episódio isolado. O 7.º lugar, embora ligeiramente inferior em termos classificativos, reforçou a ideia de consistência, mas faltava qualquer coisa. Portugal manteve identidade, competitividade e maturidade, demonstrando que se apoderou de ambição e das melhores expectativas, para além da maior capacidade em lidar com a pressão dos grandes palcos. Mas é no último Mundial e, particularmente, neste Europeu que a evolução se tornou ainda mais evidente. A vitória frente à Dinamarca, campeã olímpica e uma das grandes potências mundiais, não foi apenas um resultado surpreendente: foi um aviso

Portugal já não entra em campo a tentar resistir — entra para competir. Mesmo jogos equilibrados, como o empate com a Macedónia do Norte ou esta derrota com a Alemanha, mostraram uma equipa consciente do seu valor, capaz de competir até ao último segundo. Estes resultados refletem um percurso estrategicamente sólido, liderado por Paulo Pereira, que apostou numa geração “irreverente”, mas talentosa. A equipa apoderou-se de um modelo de jogo moderno, agressivo, comprometido, intenso e muito coletivo, em que os papeis estão perfeitamente definidos e as ações coordenadas. Há qualidade individual, sim, mas há sobretudo organização, confiança e uma mentalidade vencedora que durante muito tempo faltou ao desporto português.

Na minha perspetiva, mesmo não sendo da modalidade, Portugal está hoje num ponto de não retorno ao passado. Os resultados recentes no Mundial e no Europeu não são o teto, mas sim a base. O desafio futuro é manter essa exigência como norma de atuação, qualquer que seja o adversário ou competição. Apesar do “grupo da morte” que temos pela frente, se isso acontecer, falar de Portugal na luta por “medalhas”, neste Europeu, deixará de ser um sonho e passará a ser uma expectativa legítima. Não podemos é estar com a cabeça nesse sonho e não ter os pés bem assentes na terra…



 

Carlos Dias

Carlos Dias

23 janeiro 2026