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A arte de saber viver

 

1. Conta-se que um filósofo, certo dia, foi-lhe solicitado insistentemente que recebesse em sua casa um homem da aldeia a fim de lhe comunicar algo de muito importante.

O filósofo, intrigado com o pedido – visto que não recebia qualquer pessoa – cedeu em escutar quem o procurava.

O homem da aldeia, timidamente, convidado a dizer o que queria, disse: “Senhor, insisti para que me ouvisse, porque tenho um grande segredo a contar-lhe”.

O filósofo, porque era filósofo dos pés ao couro cabeludo, respondeu ao homem da aldeia: “Se é um segredo, não entendo porque o quer revelar. É segredo, você o disse. Logo, não deve contar-me o segredo. Mais: normalmente um segredo está ligado a assunto negativo, maldade praticada, fracasso de alguém perante a sociedade, pelo que, não tenho interesse em conhecer as desventuras de ninguém”.

“Se é para dizer-me um segredo relacionado com o êxito de alguém – continuou o filósofo – isso é normal, faz parte da luta ou da sorte da vida e, nem isso será nunca um segredo”.

O homem da aldeia, envergonhado do ridículo testemunhado perante a reacção do filósofo, pediu licença para sair e, desesperado, pareceu-lhe longo o curto espaço que teve de passar até atingir a porta da rua.

A presente história – simples, mas cheia de verdade e de filosofia, filosofia empapada na arte de saber viver – mantém-se actual, porque é de todos os tempos e de todas as sociedades praticar-se a arte dos segredos ou dos cochichos.

Então, entre incompetentes com poder, entre políticos, negociatas ou invejosos, é uma desolação! “Falo-te baixinho porque é segredo”; “conto-te esta novidade, mas é para ficar entre nós”; digo-te este segredo, mas se o revelares eu nego que to contei”, etc.

Cochicha-se distraidamente e tantas vezes não se mede o prejuízo que se pode causar com o cochicho. E se muitos se prestam ao cochicho – tantas vezes para esmagar os outros – muito mau é saber-se que o triplo ou quádruplo dos não cochicheiros, estão sempre receptivos a serem músicos de ouvido – porque não têm força, estaleca ou sã filosofia para combater tal peixeirada.

Normalmente, cochichar é dizer mal de alguém, ou apontar falhas de alguém, pois claro. E quando o fazem, dilatam sempre a situação: conta-se bem e muito, o mal; mas para falar-se do bem, conta-se pouco e sonega-se outro tanto. 

Razão tinha o meu Mestre, quando me sentia triste e recorria ao seu consolo: “Não dês qualquer valor a cochichos e quando não poderes dizer bem dessa gente, nunca digas mal, pois, o cochicho é proveniente da choldrice”.

 

2. As gentes sabem da existência de aves perigosas e muitos convivem com elas. Sobejamente conhecidas são águias, falcões, abutres e mais espécies.

As aves de rapina ou rapinantes, apresentam-se de bicos recurvados, pontiagudos, de garras fortíssimas, cortantes e de visão apurada para caçarem as presas. Entre estas aves temos ainda as sarcófagas que comem restos de animais, desde que melhor não tenham.

Uma destas aves, certo dia, apanhou um pedaço de carne no monte e continuando a subir para lugar seguro, verificou que era perseguida por outras, para comerem também. Confirmada a permanente perseguição, deixou cair o manjar e verificou que as outras se matavam umas às outras, enquanto se ia fundindo no firmamento.

Nas pessoas também há dificuldades em largar “certos manjares”. Atente-se nestas eleições presidenciais deste 18 de Janeiro de 2026 e recordemos que para agarrarem o “naco de carne” – como as aves – se tentaram matar uns aos outros.

Querem e amarram-se aos “manjares”: por vício, por cultura reduzida, por falta de coerência, teimosia e insensatez. Esquecem-se que um dia, o corpo desce ao ventre da terra e, os manjares agarrados podem ser condenação certa.

Liberdade interior e saber largar certos manjares: foi para a Liberdade que o Nazareno nos libertou: “não vos sujeiteis ao jugo da escravidão”, à teimosia de sempre agarrar e de não querer largar.

O abutre ou a ave sarcófaga, viu o perigo de ser mordida e morta e largou o pedaço de carne apodrecida, para poder livremente sobrevoar o imenso azul dos céus. Entre nós, entre certas aves (políticos), que lutam pelos manjares, pelos pedaços de carne existentes…, são aves em número avassalador, e quantas destas aves já meteram as mãos no açougue nacional? Nem as aves perseguidoras (a justiça), consegue tempo de voo necessário para pôr fim a tantas aves de rapina. 

E depois digam que a ave CHEGA, de Ventura, não tem também razões para comer do naco, do manjar, mesmo que um dia seja ruminado por novas aves.

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

23 janeiro 2026