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Conversa de balneário em São Bento

Na sua mais recente alocução natalícia, o Primeiro-Ministro recorreu a um discurso de pendor motivacional que rapidamente se tornou objeto de escrutínio público, tanto nas principais redações como no tribunal informal das redes sociais. Num registo de coach-mor do Reino, Luís Montenegro voltou a insistir na narrativa segundo a qual os recentes indicadores de desempenho económico projetariam Portugal como uma referência internacional, encarando o futuro como uma escolha binária entre acomodação e investimento estratégico: “jogar para empatar ou para ganhar”. Reforçando a metáfora futebolística, exortou os compatriotas a “desprenderem-se da mentalidade do ‘deixa andar’ e (…) a trabalharem a mentalidade da superação, a mentalidade de ir mais longe, (…) a mentalidade de Cristiano Ronaldo”. Mais do que revisitar um discurso amplamente dissecado, importa interrogar o recurso ao desporto-rei na retórica política.

É comummente aceite que o futebol moderno nasceu em Londres, a 28 de outubro de 1863, quando representantes de onze clubes fundaram a Football Association, lançando as bases administrativas e regulamentares da modalidade. Todavia, as suas raízes são bem mais antigas. Sem recuar às práticas lúdicas de civilizações anteriores, já em 1314 as autoridades londrinas denunciavam os distúrbios provocados por jogos de bola nos espaços públicos. Longe de ser apenas um entretenimento, tais práticas funcionavam como válvula de tensões sociais, de ajustamento informal de conflitos comunitários e até de contestação política. Progressivamente reprimidas pelo poder, foram sendo esvaziadas da sua função original e confinadas a espaços controlados, regras formais e vigilância institucional. 

Com a Revolução Industrial, o futebol foi reapropriado pelas public schools, convertendo-se num dispositivo de disciplina, moralização e formação do ideal vitoriano de gentleman, ajustado às exigências do capitalismo e da ordem imperial. Consagraram-se então a padronização das regras, a racionalização do jogo e uma ética desportiva orientada para a regulação dos comportamentos e dos corpos. Esse movimento estendeu-se para além do perímetro escolar. A partir da década de 1870, o futebol passou também a praticar-se à sombra das igrejas e das empresas, que viram na modalidade um meio eficaz de enquadrar o tempo livre das classes trabalhadoras. A sua matriz religiosa e industrial deu origem a vários clubes ainda hoje centrais no futebol europeu e mundial, como o Everton, o Arsenal ou o Manchester United, mas também o FC Barcelona, o Bayern Munique, a Juventus, o Ajax ou o Boca Juniors, entre muitos outros.

A integração social do futebol teve, contudo, uma face menos visível: um controlo cada vez mais apertado sobre aqueles que o jogavam. Por detrás da retórica do fair play e da ética desportiva, instalaram-se mecanismos rigorosos de regulação das carreiras e dos corpos. Tornados propriedade dos clubes pelo sistema de retain and transfer e sujeitos a um teto salarial rígido, muitos atletas viam negada qualquer recompensa pelo mérito ou desempenho. A célebre revolta liderada por Billy Meredith, em 1909, deu voz à frustração desses sacrificados, aplaudidos, mas mantidos sob tutela. A fotografia dos Outcasts, jogadores do Manchester United suspensos por tentarem sindicalizar-se, tornou-se símbolo da resistência. O futebol sempre foi um terreno fértil de clivagem social, oscilando entre o controlo paternalista das elites e formas plurais de sociabilidade popular.

O desporto-rei mudou profundamente, mas conserva marcas estruturais do seu passado. Evocar uma carreira única como exemplo cívico, sugerindo que o sucesso depende apenas da vontade individual, é ignorar as desigualdades sociais persistentes que condicionam os percursos de vida. Sob um verniz motivacional, a narrativa de Luís Montenegro reatualiza o paternalismo industrial de outros tempos, prometendo redenção individual quando falta igualdade estrutural. Apetece lembrar ao senhor Primeiro-Ministro que, na política como no futebol, não se ganha um desafio apenas com conversa de balneário.


 

*Professor da Universidade Católica Portuguesa – Braga

Manuel Antunes da Cunha

Manuel Antunes da Cunha

17 janeiro 2026