Porque é que tantas pessoas vivem com a sensação persistente de estarem sempre em falta mesmo quando cumprem tudo o que lhes é pedido? A pergunta surgiu-me logo ao início do dia ainda antes da primeira aula enquanto bebia café e pensava no que o dia ainda ia trazer. Não era uma questão teórica, mas aquele desconforto prático que aparece de mansinho e vai connosco ao longo do dia, mesmo quando fingimos que não está lá.
Foi nesse estado que pensei em Franz Kafka, não apenas no escritor do início do século XX, mas no homem que viveu em Praga, trabalhou numa companhia de seguros, cumpriu horários exigentes e escreveu muitas vezes à noite, cansado, dividido entre obrigações que não escolheu e a necessidade quase existencial de escrever. A sua obra nasce dessa experiência concreta e embora não fosse filósofo de formação Kafka é hoje lido como um dos grandes pensadores do século XX. Conseguiu descrever através da literatura a experiência moderna de um mundo burocrático impessoal e opaco que exige sem explicar e faz com que o indivíduo se sinta permanentemente em falta.
Não admira por isso que uma das suas frases continue a fazer tanto sentido quando escreve que "a culpa é sempre indubitável". Não porque seja verdadeira, mas porque descreve com precisão um sentimento muito atual. Vivemos como se a culpa estivesse sempre garantida e como se falhar fosse a condição normal de quem vive em sociedade. Mesmo quando cumprimos parece nunca chegar.
Ao pensar neste sentimento de culpa difusa lembro-me das palavras do meu professor Padre Costa Pinto nas excelentes aulas de Ontologia. Falava-nos da tendência humana para assumir como falha pessoal aquilo que resulta de estruturas que não compreendemos nem controlamos e dizia que a culpa se instala quando o sentido se perde e deixamos de perceber o nosso lugar no todo. É difícil não reconhecer aqui a mesma lógica que atravessa a escrita de Kafka e que hoje se tornou tão familiar no quotidiano.
É por isso que essa experiência se reconhece facilmente no nosso dia a dia. Constato-a diariamente na minha experiência profissional nos alunos empenhados que nunca sentem que chega e sobretudo no trabalho dos professores cada vez mais pressionados por tarefas administrativas, relatórios, plataformas e procedimentos que ocupam tempo e energia. Em vez de se concentrarem na dimensão pedagógica e humana da sua missão, muitos acabam por se sentir reduzidos a executores de um sistema que mede tudo e raramente reconhece o essencial, transformando a vocação educativa numa sucessão de obrigações formais.
Esse sentimento não se limita, contudo, à escola ou à profissão docente. Surge também quando alguém precisa de apoio social e sente que tem primeiro de provar que merece ajuda. Mesmo quando o direito existe instala-se a sensação de estar a pedir demais como se a necessidade tivesse de ser constantemente justificada perante um sistema que desconfia antes de compreender.
Algo semelhante acontece na relação com os serviços do Estado e com os sistemas administrativos em geral, uma das experiências mais claramente kafkianas do quotidiano. Procedimentos complexos, linguagem técnica, prazos rígidos e respostas automáticas fazem com que o cidadão se sinta sempre potencialmente em falta. Mesmo quando tudo é entregue e todas as etapas são cumpridas, permanece a dúvida de que algo ficou mal feito, como se a falha fosse apenas uma questão de tempo.
É neste ponto que a leitura de Franz Kafka se cruza com a de Simone Weil, filósofa atenta aos mecanismos da obediência, quando escreveu que "a obediência é cega quando dispensa a atenção". Cumprir sem compreender não é virtude, é renúncia ao pensamento, e não é necessário um poder violento para que isso aconteça, bastando um sistema suficientemente opaco para que a culpa se instale de forma discreta e persistente.
O problema é que, num mundo assim, a informação multiplica-se, mas o esclarecimento escasseia. As regras acumulam-se, os procedimentos tornam-se cada vez mais complexos e, quando algo não corre bem, a responsabilidade recai quase sempre sobre quem cumpre, deixando uma sensação persistente de insuficiência, mesmo quando se faz tudo o que é pedido.
Terminei o café e segui para a aula com a pergunta inicial ainda presente, não como algo a resolver naquele momento, mas como algo a pensar. Kafka talvez não nos ajude a viver com mais conforto, mas ajuda-nos a compreender melhor este sentimento de falhar mesmo quando se cumpre. É por isso que a pergunta que deixo aos leitores faz sentido.
- Cumprimos o que nos pedem ou pensamos o que fazemos?