1. Leio no número 27 da encíclica da Paulo VI Populorum Progressio: «Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem deve cooperar com o Criador no aperfeiçoamento da criação e imprimir, por sua vez, na terra, o cunho espiritual que ele próprio recebeu.
Deus, que dotou o homem de inteligência, de imaginação e de sensibilidade, deu-lhe, assim, o meio para completar, de certo modo, a Sua obra: seja artista ou artífice, empreendedor, operário ou camponês, todo o trabalhador é um criador.
Debruçado sobre uma matéria que lhe resiste, o trabalhador imprime-lhe o seu cunho, enquanto para si adquire tenacidade, engenho e espírito de invenção.
Mais ainda, vivido em comum, na esperança, no sofrimento, na aspiração e na alegria partilhada, o trabalho une as vontades, aproxima os espíritos e solda os corações: realizando-o, os homens descobrem que são irmãos».
2. Trabalhar é um dever dos homens. De todos os homens. Um dever e um direito.
Trabalhar é colaborar na obra de Deus, é ajudar os irmãos, é aumentar a riqueza e a beleza do mundo, é realizar-se e aperfeiçoar-se.
Ninguém, por rico que seja, está dispensado de trabalhar. Se não precisa, necessitam os outros. A preguiça, seja de quem for, deixa o mundo mais pobre.
3. Todo o trabalho, por menos vistoso que seja, enobrece o homem.
Os homens – importa salientá-lo – não são grandes pela profissão que exercem mas pela maneira como a realizam. O título de nobreza de Cristo era ser «o filho do carpinteiro».
É necessário que cada um execute o seu trabalho com nobreza e com dignidade. Com consciência e competência. Que não perca o tempo em agitações inúteis ou críticas estéreis. Que trabalhe e deixe trabalhar. Que cumpra o seu dever em vez de gastar a vida a fiscalizar como os outros cumprem o deles.
É pelo trabalho que se vence o fatalismo social e conquista um nível de vida melhor.
4. Sendo um dever – e de tal maneira que, como diz S. Paulo, quem não trabalha não deve comer (2Tessalonicenses, 3,10) – o trabalho é, ao mesmo tempo, um direito. Paulo VI acentua-o no n.º 14 de «Octogesimo Adveniens».
Todo o homem tem direito ao trabalho, à possibilidade de desenvolver as próprias qualidades e a sua personalidade, no exercício da profissão abraçada; a uma remuneração equitativa que lhe permita, a ele e à sua família, cultivar uma vida digna no aspeto material, social, cultural e espiritual; à assistência em caso de necessidade, quer esta seja proveniente de doença ou da idade.
5. Há-de o trabalho, como toda a economia, estar ao serviço do homem (Populorum Progressio, 26). Permitir-lhe que viva uma vida digna. Ajudá-lo a ser cada vez mais homem.
Isto supõe a existência de condições adequadas, horários compatíveis e remunerações convenientes.
«Tendo em conta as funções e produtividade de cada um, bem como a situação da empresa e o bem comum, o trabalho deve ser remunerado de maneira a dar ao homem a possibilidade de cultivar dignamente a própria vida material, social, cultural e espiritual e a dos seus (Vaticano II, Gaudium et Spes, 67).
Que se evite, na organização do trabalho, o perigo de desumanizar o seu executor, tornando-o escravo, pois o trabalho só é humano na medida em que permanecer inteligente e livre (Populorum Progressio, 28).
6. Do magistério do Papa Francisco destaco três referências ao trabalho e à pessoa do trabalhador:
“Trabalho quer dizer dignidade, trabalho significa trazer o pão para casa, trabalho quer dizer amar!” (na visita pastoral a Cagliari, a 22 de setembro de 2013).
O trabalho precário «é «uma ferida aberta para muitos trabalhadores, que vivem no medo de perder o próprio trabalho. Precariedade total. Isso é imoral. Isso mata: mata a dignidade, mata a saúde, mata a família, mata a sociedade” (videomensagem para a Semana Social da Conferência Episcopal Italiana, em 26 de outubro de 2017).
“Penso sobretudo nas trabalhadoras: o desafio é tutelar, ao mesmo tempo, quer o seu direito a um trabalho plenamente reconhecido quer a sua vocação à maternidade e à presença na família. A mulher deve ser preservada, ajudada neste duplo trabalho: o direito a trabalhar e o direito à maternidade” (Discurso à União Cristã de Empresários Dirigentes, 31 de outubro de 2015).