twitter

NIGÉRIA: O “presente de Natal” de Trump

O governo nigeriano luta há muito tempo contra grupos jihadistas e outros atores não estatais, como o Boko Haram e fações ligadas ao Estado Islâmico, no nordeste do país e noutras regiões. Mas, no que pareceu ser um “presente natalício”, Trump atacou no dia de Natal realizando com a autorização do presidente nigeriano operações militares de alta precisão com a total colaboração das forças armadas do país, alegando ter destruído acampamentos e matado vários terroristas.

Os ataques são o resultado da incapacidade da Nigéria de conter a insurgência, o que levou a um conflito diplomático tenso de cerca de um mês entre o país e os EUA. A Nigéria foi rápida em afirmar que houve partilha de informações e coordenação estratégica entre os dois governos antes dos ataques. 

Este artigo tenciona fazer uma breve reflexão tripartida: O que teria motivado o presidente dos EUA; A reação imediata e posterior do governo nigeriano; e a atitude dos povos da Nigéria.

A política protecionista de Trump já foi evidenciada desde o início da sua presidência pelas suas políticas internas, bem como pelas suas políticas externas. Aquele que fez do seu slogan de campanha, to make america great again logo que tomou posse, não limitou o alcance do seu governo ao território americano. O seu envolvimento no Médio Oriente e na guerra entre a Ucrânia e a Rússia são apenas alguns exemplos.

A sua razão para “atacar” a Nigéria foi o facto de o governo não ter feito quase nada, ou não ter tido grandes resultados, perante as atrocidades repetidamente cometidas pelos terroristas e sempre com total impunidade. Depois do anúncio do possível ataque, choveram interpretações. Alguns elogiaram o “sacrifício Trumpiano” enquanto outros criticaram aquilo que em sua opinião poderá vir a ser uma exploração camuflada.

O governo nigeriano não achou que a vida dos cristãos estivesse em perigo, negou que isso estivesse a acontecer e enviou emissários para persuadir Trump a não intervir por, em seu entender, não haver justificações para tal. Mais tarde, o governo percebeu que os EUA iam avançar, mesmo sem autorização e decidiu colaborar.

Trump acordou o governo, a Assembleia da República, os média e a maioria do povo. Estes até rejubilaram com o efeito, preferindo que os EUA tirassem partido dos recursos do estado, intervencionando, uma vez que os sucessivos governos não os têm empregado na construção do seu país. 

Como resultado do ataque, muitos nigerianos de diferentes convicções ideológicas acolheram os ataques dos EUA contra os jihadistas como uma resposta aos anseios antiterroristas de longa data da grande maioria da população, ainda que com grande preocupação sobre possíveis danos colaterais futuros. Embora os ataques aéreos dos EUA possam ter sido encarados como um sucesso antiterrorista, para qualquer nigeriano com pensamento crítico, isso deve ser, antes de mais um apelo à reflexão sóbria e a um debate nacional urgente sobre soberania. Em circunstâncias normais, apenas o Estado deve ter prerrogativa para o uso da violência em seu território. 

Talvez esteja na hora de uma revolução total para colocar o país em pé de igualdade com outros países de África e do mundo em geral que tomaram o seu destino nas próprias mãos após confrontar as estruturas de violência, injustiças e uma liderança construída sobre mentiras sistémicas que os têm mantido subdesenvolvidos e prisioneiros no seu próprio país. O atual sistema político na Nigéria falhou em termos fundamentais. 

Entre a Nigéria e os EUA deve abrir-se e alargar-se a mesa de negociações e trabalhar para reforçar as relações bilaterais na resolução deste problema que é um monstro de várias cabeças.


 

default user photo

Padre Simon Okechukwu Ayogu

2 janeiro 2026