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“Algozes” do dinheiro físico

 



 

 

Quando em fevereiro de 1950, um advogado de Nova Yorque no momento de pagar a conta num restaurante da cidade se viu sem dinheiro para o fazer, por se ter esquecido da carteira em casa, ficou pior que estragado. Pediu imensa desculpa e prometeu passar mais tarde, a fim de liquidar a despesa. Justificação que foi aceite, dado ser cliente habitual da casa. O que não só deixou de lhe causar alguma inquietação, como o pôs a pensar.

Depois de muito matutar, começou a gizar uma forma de resolver situações imprevistas como a que lhe sucedeu, sem ter de recorrer às notas e moedas. Foi quando se lhe fez luz sobre a existência dos cartões que já eram usados, embora de forma limitada, pelas associações de bombeiros, engraxadores, etc., dos Estados Unidos. E se rápido foi a discernir, mais depressa ainda se decidiu a gizar a empreitada, indo propô-la a alguém que estivesse interessado na criação de um cartão semelhante. O que evitaria a todos os cidadãos que a ele aderissem não só o enrasque por ele vivido, como substituiria o dinheiro na carteira, sujeito a roubo ou perda.

Assim, Ralph Schneider e Frank McNamara decidiram fundar o Diner’s Club, a primeira empresa a imitir catões de crédito com vista ao seu fornecimento aos associados, mediante o pagamento de uma joia anual. Cuja obtenção dependia da recolha de informações sobre idoneidade da pessoa, reputação, fiabilidade e garantias de sustentação de saldo, tal como como nos cheques bancários. Os quais, há já algum tempo haviam substituído as letras de câmbio usadas na idade média, cujo espécime de cheque mais antigo, remonta a 1670, encontrando-se exposto no Museu de Londres. 

Esta forma de pagamento em papel havia começado a dar problemas com a ocasional falta de cobertura. O que levou as autoridades financeiras dos países a regular o seu uso por decreto de 1966, uniformizando-o por lei, em 1985, a fim de impor alguns requisitos. Desta feita, novas regras surgiram para maior segurança de quem emite o cheque e de quem o recebe, de entre as quais a possibilidade de ser cruzado ou visado. Ficando o seu titular sujeito a ver recusada a sua requisição, caso infrinja as normas. Podendo em certos casos ver a conta cancelada e, por decisão do Tribunal, vir a ser detido. 

Hoje, apesar da diminuição do uso dos cheques a Banca continua a fornecê-los aos clientes que os desejem. Porque quem reina é o cartão multibanco que pode ser de crédito ou débito, dependendo da necessidade de cada cidadão ou cidadã. Basta introduzi-lo na ranhura do Terminal de Pagamento Automático (TPA), digitar o código e a quantia a levantar ou a pagar e está o assunto arrumado. Cabe num pequeno espaço e já entrou, há algum tempo, no ritmo da vida das pessoas sem que necessitem de um cêntimo no bolso.

Jovens e velhos, de todos os géneros identitários é vê-los em frente ao TPA, vulgo Caixa Multibanco, a resolverem os seus compromissos assumidos perante a sociedade e o Estado. Uma verdadeira revolução que, para além de ter vindo facilitar a vida a muita gente, também originou bastante desemprego. Da mesma forma que esta simplório ‘ticket’ veio trazer novos perigos, como o da clonagem, falsificação e descontrole no endividamento. 

Entretanto, novos “algozes” do dinheiro físico vão surgindo, tais como a transferência bancária e os meios eletrónico-digitais, vulgo sociedade ‘Cashless’, de que fazem parte o MB Way, a Apple pay, o Google Pay, etc. Algo a que nem todos saberão aceder por falta de literacia informática. Contudo, de entre as várias modalidades de pagamento, é o multibanco a reinar nas economias mundiais. Mas se o caro leitor está a pensar ir festejar o Réveillon a qualquer lado não se fie demasiado no cartão. Visto poder acontecer-lhe que no momento de pagar a despesa, mesmo recheado, o veja recusado pelo terminal devido a anomalia técnica. É que se não levar algum ‘graveto’ no bolso, poderá ver-se de volta aos anos 50 do início desta crónica. 

Feliz Ano Novo 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

29 dezembro 2025