Quando as luzes se acendem por todo o lado, que é um apelo ao mais simbólico cristão expresso na estrela de Belém, embora explorado mais no aspecto comercial e consumista, é importante reconhecer o que significa como tempo de fraternidade e humanidade:o céu aproxima-se da terra e a terra sobe até ao divino, ouvindo o apelo dos Anjos: “Glória a Deus nas alturas, e Paz na terra aos homens”!...
É pois um tempo de fraternidade, a esquecer os estigmas de raça, religião ou de nacionalidade, porque todos somos irmãos. Nem sempre esta perspectiva aparece nesta quadra natalícia, onde o estrangeiro aparece como objeto de exploração, utilitária, ou bode expiatório, em tempos de guerra, ou de crise para certos políticos. Sofrendo até o “síndrome de Ulisses” como um recusado, mal visto, rival ou moeda de troca, recordo um dos personagens da novela Misérables do escritor francês do séc. XIX Vitor Hugo:
Javert é um exemplar funcionário do governo, zeloso dos seus deveres, no cumprimento e aplicação das leis, que considera a pedra angular do sistema social e da justiça. Em tudo se deve cumprir a lei, que é a base da civilização. Chega a dizer que, se ele mesmo tem alguma conduta pouco exemplar, insiste que deve ser castigado duramente. Esta defesa implacável da ordem social leva-o a perseguir sem descanso um fora de lei, Jean Valjean, um homem que, dado que infringiu uma vez a lei por ter dado um naco de pão aos seus sobrinhos cheios de fome, é mau por natureza, e deve ser perseguido, marginalizado, nem deve fazer parte da sociedade, pois a poria em perigo.
Sem dúvida, o zeloso funcionário Javert, com episódios, que ao longo da novela vão descrevendo que Valjean é um homem generoso, mostram uma boa pessoa, de tal forma que, na insurreição de Paris em 1856, em que Javert é condenado à morte pelos insurrectos, Valjean não duvida em defendê-lo, inclusive arriscando a sua própria vida até que o ponham em liberdade.
Javert vê-se num grande impasse e adianta: acaso alguém, fora de lei, marginal pode ser bom?Estarei atuando de modo justo com Valjean? E o narrador faz depois uma série de considerações oportunas, cheias de humanismo, num paradoxo de duas atitudes visceralmente opostas.
Javert admirou a atitude de um fora de lei. O código da lei anula-se na sua mão e permanece na sua honra original. Há pois algo mais acima do dever… do farisaísmo legal.
E o autor conclui: no mundo de hoje vivemos o mesmo dilema de Javert: todos somos um Javert; qual é a nossa atitude perante os imigrantes que, nas nossas instituições, alguns consideram “ilegais”?, fora de lei como Valjean tantos “bem pensantes” da nossa sociedade que consideram que não devem estar entre nós, porque podem desestabilizar o nosso “pobre” sistema?
Por vezes, estamos conscientes que são boas pessoas, que não fizeram nada de mal…
Que fazer diante desta flagrante contradição? Javert não encontra uma solução deste dilema. A sua consciência não lhe permite perseguir um justo. Não sabe como defender a sociedade, suas leis, os seus valores e ser justo com Valjean. Victor Hugo exemplifica a ausência de solução a este dilema quando Javert, incapaz de tolerar não ser justo, se lança às águas do rio Sena numa fria noite de inverno, próximo de Natal. ( cit in Joseba Achotegui El Sindrome deUlises,www.nediciones..com)
Qual a nossa atitude, como portugueses, neste tempo e conjuntura actual, esquecendo mesmo as atitudes de certos políticos?
Natal – Tempo de Fraternidade
Rosas de Assis
28 dezembro 2025