Há dias ouvi uma interessante estória interpretativa da função dos pardais e de quem assume ser como eles.
Que caraterísticas têm os pardais para que possam quase passar desapercebidos, sem grande significado e/ou projeção? Tais aves bastante comuns, que função têm onde vivem e como que proliferam? Haverá ‘pessoas-pardais’, que se fazem insignificantes para ganharem a vida sem compromisso? Não viveremos, atualmente, numa espécie de psicologia de pardal, fazendo barulho (real ou virtual) e não dando o contributo mínimo para o bem comum? Por que será que quase nunca se viu algum pardal em gaiola (simples ou dourada)? Será por vulgaridade ou por um certo menosprezo para com os pardais?
1. Vejamos a descrição dos pardais – numa consulta mesmo que superficial à internet – são aves da família dos passerídeos e podemos encontrar o pardal-comum (passer domesticus): uma ave de pequeno porte, com plumagem acastanhada ou acinzentada, frequente em zonas urbanas e rurais. Existem diferenças entre o macho e a fêmea. Não se conhece aos pardais grandes dotes de canto…
2. Se voltarmos à estória do início de alguém que preferia ter mentalidade de pardal, isto é, de não assumir as suas qualidades, de continuar a misturar-se no mínimo para não ter responsabilidades ou de deixar a outros a tarefa de fazer por ele, desde que o deixem ficar num canto a ‘curtir’ as suas lamúrias, mas não os seus dons… à semelhança da vulgaridade dos pardais – nem bonitos nem cantores (chilreiam) e tão pouco destoando do bando – esse viveria a sua vidinha sem preocupações e deixando a outros pássaros mais vistosos – pessoas com outros dons e carismas – a assunção de responsabilidades com outro compromisso.
3. Quem não recordará a ‘história de Fernão Capelo Gaivota’ – levada à tela em 1973 – como expressão de rebeldia e de sair do marasmo… bem em contraste com a conformidade e a psicologia de pardal de tantos dos nossos contemporâneos.
Eis uma breve resenha dessa ‘história’: a história de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach – novela publicada em 1970 – fala-nos sobre uma gaivota que se revolta contra a conformidade para alcançar a perfeição no voo. Expulsa do seu bando por não se contentar em voar apenas para sobreviver, Fernão parte em busca de aperfeiçoamento, o que o leva a aprender sobre os limites do seu próprio potencial, a liberdade e a dedicação. Eventualmente, ele transcende o seu bando, encontrando outras gaivotas que partilham a sua paixão e que o ensinam a manipular a realidade, antes de ele decidir voltar para partilhar o seu conhecimento…
4. Diante de quem quer ser diferente somos confrontados com os que não destoam, muitas das vezes mais por acomodação e por conformismo do que por capacidade de marcarem o ritmo do tempo e do espaço onde se encontram. Neste contexto recordo essa frase proferida por Bento XVI, quando beatificou os pastorinhos, em Fátima: muitos têm as mãos limpas de não fazerem nada. Diríamos, nesta etapa, são pardais algo barulhentos mas sem discurso que interpele nem que mobilize…mesmo os próprios e muito menos os outros.
5. Nos diferentes âmbitos das relações humanas e sociais em que nos encontramos há muitos – dir-se-á demasiados – intervenientes que se quedam pelo menos possível, deixando lacunas de intervenção à espreita de oportunistas, mais habilidosos do que os participantes. Numa linguagem futebolística: há tantos ‘treinadores de bancada’ que os jogadores ficarão confusos com as táticas, de tão diversificadas que se revestem. Boa parte desses ‘entendidos’ na matéria de soluções jogariam com os pés trocados, pensando serem bons rematadores, na hora da vitória.
6. Concluindo em contexto de ‘greve geral’: andam por aí a esvoaçar tantos pardais, que corremos o risco de confundi-los com aves de rapina…