twitter

A velha Europa como farol da liberdade

 

 

 


 

Durante décadas, convencemo-nos de que o mundo que emergiu após a Guerra Fria representava uma realidade perene. Hoje percebemos que foi apenas um intervalo. A ordem internacional voltou a fragmentar-se, as esferas de influência regressaram e a competição entre grandes potências renasceu. Neste novo contexto, a Europa encontra-se novamente no centro da História, não por escolha, mas por necessidade.

A chamada “Velha Europa” é frequentemente retratada como cansada, burocrática ou excessivamente prudente. Contudo, essa leitura ignora aquilo que constitui a sua maior força: uma experiência histórica única, construída sobre as ruínas da guerra e do totalitarismo, e transformada, ao longo de décadas, num espaço político assente no primado do Estado de direito e das liberdades fundamentais. Num mundo onde estes valores são cada vez mais relativizados, a Europa continua a representá-los de forma consistente, mesmo quando alguns dos seus próprios Estados estão a colocá-los em causa.

O actual contexto internacional é revelador. Os Estados Unidos deslocaram progressivamente a sua prioridade estratégica para o Indo-Pacífico; a Rússia autocrática procura reconstruir zonas de domínio perdidas; a China totalitária opera acumulando influência económica em diversas partes do globo. Entre estas dinâmicas, a Europa surge como um espaço simultaneamente demasiado relevante para ser ignorado e demasiado hesitante para se afirmar plenamente. Essa ambiguidade tornou-se na sua maior vulnerabilidade.

A invasão russa da Ucrânia marcou um ponto de viragem claro. Não se trata apenas de um conflito territorial, mas da confirmação de que a paz europeia não é um dado adquirido. A guerra expôs dependências energéticas e fragilidades industriais que durante anos preferimos não reconhecer e até incentivamos esse caminho. Não obstante, não se baixou a guarda ao nível das liberdades.

Ainda assim, é precisamente neste cenário que a Europa continua a distinguir-se. Enquanto noutras regiões do mundo se normaliza a repressão política, a censura e a concentração ilimitada de poder, a Europa permanece como um espaço onde a democracia liberal, embora imperfeita e permanentemente pressionada, continua a ser prática viva. A separação de poderes, a independência judicial, a protecção das minorias e o respeito pelos direitos individuais não são meras proclamações; são referências concretas observadas além-fronteiras.

Ser farol da liberdade implica, porém, responsabilidade. A Europa não pode defender os seus valores apenas em abstracto. Precisa de capacidade política, económica e estratégica para os sustentar. Isso exige uma União Europeia capaz de agir num mundo competitivo, menos dependente de consensos paralisantes.

Neste esforço, o papel da Alemanha é incontornável. A integração europeia sempre avançou quando Berlim assumiu responsabilidades e estagnou quando hesitou. 

A Europa não deve procurar impor-se como potência pela força, mas também não pode refugiar-se na ilusão de que os valores se protegem sozinhos. Defender a Ucrânia, exigir respeito pelos direitos humanos, reforçar alianças e diversificar parcerias globais são escolhas que definem a credibilidade europeia. O pragmatismo não pode servir de pretexto para a complacência com o autoritarismo.

A Velha Europa não é perfeita e precisa de se reformar. Precisa de se aproximar dos cidadãos, simplificar processos e reforçar a sua capacidade de decisão. Mas deve fazê-lo sem abdicar daquilo que a distingue num mundo cada vez mais instável: a convicção de que a liberdade individual, a democracia pluralista e o Estado de direito não são luxos do passado, mas condições essenciais para o futuro.

Num tempo de incerteza global, a Europa continua a provar que o progresso não nasce da força bruta, mas da liberdade sustentada por instituições sólidas. Talvez por isso, mesmo envelhecida, continue a iluminar o caminho. Porque quando o mundo escurece, a liberdade precisa de referências: a Europa continua a ser uma delas!


 

Bruno Miguel Machado

Bruno Miguel Machado

14 dezembro 2025