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Uma guerra esquecida (1)

1. Num destes domingos de Novembro, o Papa Leão XIV alertou para a trágica situação vivida no Sudão, uma guerra fratricida, apelando a uma intervenção da comunidade internacional: "É com grande pesar que acompanho as notícias trágicas que chegam do Sudão, em particular da cidade de Al-Fashir, na devastada região norte de Darfur. A violência indiscriminada contra mulheres e crianças, os ataques a civis indefesos e os graves obstáculos à acção humanitária estão a causar sofrimentos inaceitáveis a uma população já exausta por longos meses de conflito".

Li ainda, da autoria de Jeanne Durieux, num diário francês: "Civis metralhados por espingardas Kalashnikov ao longo dos aterros, homens reunidos em grupo para serem queimados vivos, crianças exaustas e mudas a vaguear sem pais pelos campos de refugiados, mulheres apáticas com olhares assombrados que se calam sobre as violações colectivas que sofreram, eis algumas das imagens insuportáveis que inundaram as redes sociais nos últimos dias, quase duas semanas depois de as FAR terem tomado a cidade sudanesa de El-Fasher. Uma estimativa inicial aponta para cerca de 3.000 civis mortos, mas o número real pode ser consideravelmente superior".

O Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos deu conta dos eventos mais recentes em que centenas de civis e combatentes desarmados foram mortos quando as FAR captaram Al-Fashir, o último grande reduto do Exército sudanês em Darfur. A cidade caiu após um cerco de 18 meses, o que levou à fuga de milhares de pessoas.


 

2. Com efeito, desde de Abril de 2023, o Sudão mergulhou num conflito rival onde se defrontam dois grupos militares a disputar o poder: as ‘Forças Armadas Sudanesas’ (FAS) e as ‘Forças de Apoio Rápido’ (FAR), esta uma milícia paramilitar. A rivalidade teve início após desavenças sobre a partilha do poder que se seguiram ao golpe militar do final de 2021. Ora, as FAS, lideradas pelo general Abdel Fattah Burhanl operam como um Exército regular e possuem em torno de 200 mil soldados; as FAR, possuem entre 70 a 100 mil, sob a chefia do general Mohammed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, que actua como uma guerrilha. A RSF domina a zona do oeste, Darfur e Kordofan, enquanto a SAF tenta manter ou retomar o leste e a capital. A posição estratégica de Cartum, no centro do país, dá azo a guerra urbana, num Estado inoperante; nas zonas limítrofes, grassa um sofrimento indizível, com acampamentos de deslocados, zonas agrícolas queimadas e comunidades inteiras à mercê de milícias, onde deflagram questões étnicas e religiosas. Da guerra, resultou uma das crises de deslocamento de pessoas das mais graves em todo o mundo, com cerca de 10 milhões forçadas a abandonarem as suas terras.

Tal guerra, segundo relatos de ONG’s, transformou o Sudão num “inferno vivo”, uma crise humanitária das mais graves do mundo, à qual pouca atenção ou ajuda foi dada. O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se a 18 Novembro para votar um projecto de resolução; a Rússia vetou. O diplomata do Reino Unido, David Lammy, que presidiu à reunião, realçou que, durante mais de 18 meses, os civis sudaneses sofreram “violência inimaginável”, referindo "atrocidades motivadas pelo ódio étnico, violência sexual, incluindo violações em massa e crianças raptadas e recrutadas como soldados". Se tivesse sido aprovada, poderia significar a condenação dos ataques dos paramilitares do RSF em El Fasher, em Darfur, e um apelo à suspensão de todos os ataques contra civis, além do estabelecimento de pausas humanitárias e de ajuda pelas fronteiras.


 

3. Em contraste com o Médio-Oriente, a diferença não poderia ser mais avassaladora e incompreensível. Sobre o conflito trágico em Gaza, todos os dias e a todas as horas somos inundados de notícias, para além de quantas campanhas em ruas e praças, e flotilhas a caminho… Sobre o conflito que ocorre no Sudão, a atenção internacional esmorece, quando grande parte das atrocidades são cometidas por milícias muçulmanas contra civis não árabes, animistas e cristãos: a informação é escassa, inexistência de manifestações, nenhumas flotilhas, ignorando-se assim crimes cometidos por milícias muçulmanas contra civis. É possível que, sem exagero, tenham sido assassinadas mais pessoas numa semana em El Fasher do que em dois anos em Gaza, segundo sustém Nathaniel Raymond, Director Executivo do Laboratório Humanitário de Investigação de Yale. A diferença não poderia, pois, ser maior: dum lado, condena-se algo tornado bem visível, do outro, esquecem-se massacres perpetrados nesse país da África Oriental, em que inexiste cobertura mediática, sobre uma tragédia com mais de 150 mil mortos e 12 milhões de deslocados desde 2023. Ao contrário do conflito em Gaza, que gerou inúmeras mobilizações e reacções nos últimos dois anos, a guerra no Sudão suscita apenas uma discreta indignação, até mesmo um silêncio indiferente. Quais as possíveis razões? Continuaremos no próximo artigo.


 

O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

29 novembro 2025