Quando algo nos marca profundamente e contribui para o nosso crescimento interior, nasce em nós o desejo espontâneo de o partilhar, na esperança de que possa também iluminar e inspirar outros. É este o sentimento que me invade perante a morte do Papa Francisco – um homem que me tocou pessoalmente e cuja memória desejo perpetuar com gratidão e reverência.
Conheci o Cardeal Jorge Mario Bergoglio na Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, que decorreu no Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Representava então os Bispos Portugueses, na qualidade de Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. A assembleia foi inaugurada pelo Papa Bento XVI, no dia 13 de maio de 2007, e concluiu-se a 31 do mesmo mês e ano. Foram dias de intenso diálogo e confronto de ideias. Inicialmente, nada parecia claro, e foi neste ambiente que conheci o Cardeal Jorge Bergoglio, como membro do mesmo grupo de reflexão.
Cedo se definiu a temática a abordar: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele os nossos povos tenham vida”. Mais tarde, chegou-se a uma conclusão pragmática e profundamente comprometida: realizar uma missão intercontinental. O Espírito Santo antecipava os tempos e mostrava que esse era, de facto, o caminho a seguir — algo que, mais tarde, o Papa Francisco confirmaria em inúmeras ocasiões.
Tudo foi significativo. Para mim, tiveram grande valor as relações que ali se formaram e que viriam a marcar a minha vida. Foi neste contexto que nasceram o conhecimento e alguma proximidadade que sempre animou a minha vida
De entre os múltiplos encontros que tive com o Papa Francisco, quero recordar, de forma consciente, um em particular. A Arquidiocese de Braga estava profundamente empenhada na Causa da Canonização de São Bartolomeu dos Mártires. A beatificação já havia ocorrido, mas era de inteira justiça que a canonização fosse também declarada. Estes processos são sempre complexos e sujeitos a estudos rigorosos. Tive então uma ideia que procurei concretizar com grande fé: não me limitar ao processo habitual junto do Dicastério para as Causas dos Santos, mas apresentar pessoalmente a questão ao Papa Francisco.
Preparei um pequeno dossier e solicitei uma audiência, que ocorreu no final de uma Eucaristia celebrada em Santa Marta. A nossa conversa foi breve. Bastou lembrar que se tratava de um Arcebispo com fama de santidade, e que, tal como São Carlos Borromeu, fora um dos grandes protagonistas da reforma do Concílio de Trento. Nada o deteve, e muitas das suas propostas reformadoras foram acolhidas nos documentos finais. Sublinhei que bastava o seu carácter de Arcebispo reformador, tanto no Concílio como na Arquidiocese. Creio que o Papa deu, de imediato, a sua anuência. Poucos dias depois, as dificuldades estavam ultrapassadas e, hoje, temos este Santo como modelo de uma Igreja que deseja renovar-se, fiel ao Evangelho e atenta aos sinais dos tempos.
Valeu a amizade pessoal? Não creio. Sei que soube ouvir, escutar e decidir prontamente para o bem da Igreja. Era um reconhecer que S. Bartolomeu dos Mártires era uma daqueles arcebispos que deveria ser conhecido no entusiasmo evangelizador da Igreja
Hoje, neste contexto de morte do Papa Francisco, recordo uma história que São Bartolomeu dos Mártires escreveu. Pode e deve ser interpelativa embora talvez já bastante conhecida. Sigo as suas palavras: “São João Evangelista disse que não passava de uma voz, tal como uma personagem de Terêncio diz a outra: ‘Tu, quando és, és todo sabedoria’. Também eu, tudo quanto sou, sou voz — quero dizer, não tenho outro ofício senão anunciar a vinda de Cristo. Assim também o bispo deve ser todo voz, para glória de Deus e salvação das almas; nisto consiste todo o seu munus, como quando dizemos de um homem de pequena estatura, mas com voz potente: este é todo voz. Lê-se na fábula que, tendo o lobo julgado, pela voz, que o rouxinol era uma ave grande, ao apanhá-lo e verificar que era pequeno, exclamou: ‘Tu não tens mais do que voz, e por isso nada vales.’ OH, sejamos rouxinóis de Deus, sejamos apenas voz de Deus! Que o mundo nos despreze como criaturas vis e de corpo insignificante — refiro-me às nossas limitações corporais — desde que sejamos voz de Deus e nada mais.
Foi por isso que o Evangelho foi confiado de preferência à pregação oral, em vez da escrita: a lei escreve-se em lápides; mas Cristo nada escreveu, ensinou apenas oralmente. Os Apóstolos pouco escreveram, porque na voz reside a energia e a livre expansão dos sons para todos os ouvidos, mesmo os mais rudes. Por isso, devemos ser constantemente trombetas de Deus.”
(Estímulo dos Pastores, Parte II, Cap. 1, pp. 154-155)
Sabemos que o Papa Francisco escreveu e falou muito. Temos dúvidas sobre se foi sempre ouvido. Seja como for, compete à Igreja continuar a anunciar. Num mundo de tantas palavras a gerar confusões nas opções existenciais importa que todo e qualquer cristãos, -todos, todos, todos,-não tenham vergonha de ser pequenos rouxinóis no lugar onde se encontram. Pequenos, mas com uma melodia fiel ao evangelho e ás exigências dos tempos correntes.
Chegará a hora em que o mundo se deixará encantar com as nossas melodias. Talvez seja este o legado do Papa: falou de tudo e para todos. Foi Rouxinol de Deus. Nem todos o quiseram ouvir. A sua melodia continuará a ser escutada e, se seguirmos os seus passos, não teremos medo dos lobos, mas cantaremos as maravilhas do amor de Deus que permanecerão, embora possa parecer o contrário.