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Escola do futuro

Segundo estudos recentes, o desfasamento entre as potencialidades trazidas pelas tecnologias e um contexto de escola mais clínica acabam por gerar, frequentemente, o desinteresse e a indisciplina dos alunos, referem muitos estudiosos do assunto; depois, uma aprendizagem e ensino demasiado livrescos, presenciais e expositivos são fatores inibidores de criatividade e motivação pedagógicas.

Ainda em termos de estatísticas recentes, nove em cada dez portugueses revelam baixo consumo cultural e os seus níveis de leitura são demasiados diminutos; por exemplo, 61% (sessenta e um por cento) dos portugueses não leram, em 2020, um único livro impresso e as razões aduzidas pelos estudiosos indicam preferência por outras atividades, falta de tempo, leitura de revistas e jornais desportivos.

Diz o Padre António Vieira que o livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que orienta, um morto que vive; e, deste modo, quanto mais jovem se é e quanto mais elevadas são as qualificações académicas dos pais, maior é a probabilidade de se ter usufruto na infância e adolescência de experiências de contactos com o mundo dos livros e da leitura.

Pois bem, o papel da escola é fundamental na continuação desta experiência e, sobretudo, proporcionar a leitura do livro, a visita a museus e bibliotecas e a fruição de espetáculos culturais; e, mormente, quando as redes sociais retiram a prática e usufruto da leitura, o manuseamento do livro impresso que está sempre disponível e é barato e a visita e frequência de feiras de livros, embora existam nas grandes como nas pequenas cidades, não acontece o desejável, seja por iniciativa da escola, seja por incentivo dos pais.

Então, se queremos uma escola do futuro viva, ativa e criadora, não podemos pôr de lado o progresso, uma vez que ele deve ser transmissor de conhecimento, mas não o único, pois, fundamental será que ele seja uma espécie de mentor que orienta o aluno, ajusta planos de aprendizagem e vai aferindo o progresso do estudante; e só assim o ensino personalizado em que cada aluno aprende ao seu próprio ritmo não o isenta de riscos, sobretudo o risco maior para o desenvolvimento pessoal e social, bem como a avaliação através de testes.

Depois, a sala de aula tem de se transformar num espaço dinâmico, uma oficina interativa onde o aluno seja o elemento central; como igualmente a presença da tecnologia deve prevalecer, ajudando a vigorar em todo o espaço escolar um ambiente inovador no ensino/aprendizagem.

Agora, para a existência desta ação dinamizadora é imprescindível a organização da sala de aula com os alunos posicionados de forma a interagirem, investigarem, colaborarem, descobrirem e criarem num espírito de inteira solidariedade; e na interação entre professor e aluno devem estar presentes tabletes, portáteis e telemóveis sempre que necessário e oportuno, permitindo, deste modo, a flexibilidade e a interdisciplinaridade que são tendências-chave da educação do futuro.

Costuma-se dizer que a escola que temos funciona como no século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI; e isto não é inteiramente verdade na maioria das escolas que acompanham, embora muita timidamente, os avanços pedagógicos, psicopedagógicos e didáticos, pois o peso da legislação, do centralismo central e da burocracia vão-lhes entravando os anseios de maior avanços no ensino/aprendizagem.

E daqui resulta a falta de uma maior e necessária ação de personalização do ensino, uma flexibilização de acesso aos meios necessários a uma aprendizagem que promova o desenvolvimento pessoal e integral do aluno, e, sobretudo, que impeça o crescimento de comportamentos desviantes e antissociais, em benefício da aquisição de competências sociais e comunitárias que devem estar presentes na escola do futuro.

Pois é, as entidades nacionais que responsáveis são pela Educação bem como todas as forças familiares e comunitárias que com elas dialogam e interagem devem acertar agulhas e promover as ações necessárias, quer na formação dos professores, quer na organização das escolas; pois, só assim, poderemos visionar e garantir a desejada, ativa, viva e exigente escola do futuro.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

26 março 2025