Eis-nos ante mais um mito que, embora tendo uma parte de verdade, não nos deve permitir que se sustente que essa verdade incite mentiras, como, por exemplo, dizer que havia uma inconsistência total acerca dos textos dos livros bíblicos e das orações públicas ou privadas, e que isso dera origem a um Cristianismo falso, afastado do das origens.
Na verdade, há a certeza de que, no segundo século, os quatro Evangelhos canônicos e a maioria das cartas atribuídas a São Paulo já eram assumidas como tendo o mesmo valor para os cristãos do que os textos do Antigo Testamento grego e, assim sendo, eram copiadas com o máximo rigor. Já outros textos, hoje canónicos, tiveram uma aceitação mais tardia, seja porque surgiram em locais de onde dificilmente conseguiram ser postos a circular, seja porque havia dúvidas acerca da sua antiguidade e autoria, mas, quanto a estes, o rigor não era menor. Ou seja: não eram textos flutuantes consoante os ventos do tempo, nem as marés dos lugares e o mesmo se diga a respeito de tudo o mais que será mencionado neste pequeno texto.
Por outro lado, devemos referir que não há qualquer dúvida de que no século segundo já existiam preces escritas a circularem (com texto bem estabelecidos) pelas comunidades cristãs e que eram recitadas (ou rezadas) de modo privado. De mencionar, desde logo, o “Pai Nosso”, evidentemente, mas também Salmos, Hinos e pequenas frases credais do Antigo e do Novo Testamento (usados, muitas vezes, como método oral de ensino catequético).
Mas não só. Devemos referir, de modo singular, textos provindos de extratos: da “Carta da comunidade de Roma à Comunidade de Corinto”; da “carta de São Policarpo”; da carta acerca do martírio deste mesmo Santo; das obras de Ireneu de Lyon; dos escritos de Clemente de Alexandria; das preces que eram ensinadas aos catecúmenos; bem como – e por fim (para se fazer um agrafo com o parágrafo seguinte) – de algumas secções ditas pelos fiéis leigos em resposta a quem presidia às liturgias comunitárias.
Acerca dos textos litúrgicos (batismais e eucarísticos), é de se fazer referência a preces redigidas que circulavam com constância enquanto porções provindas dos níveis mais antigos de alguns textos: da parte das liturgias batismais em que se renuncia a Satanás (na linha dos amuletos pagãos cridos como protetores contra o mal), como as testemunhadas pelos misteriosos textos do enigmático “Hipólito”; da “Liturgia do pseudo-Marcos” (que já era seguida pelo menos no Egito); da “Liturgia do pseudo-Tiago”; e da “Liturgia Romana” descrita por Justino de Siquém a meados do segundo século (já com referência à Trindade).
Estes textos escutados nas Eucaristias (que iam, elas mesmas, se estabilizando ao redor de estruturas mais fixas), eram depois copiados pelos fiéis e levados para as suas residências para serem repetidos, com grande cuidado, em recolhimento e devoção. Num ritual que sabemos ter sido costumeiro, esses textos eram colocados em nichos semicirculares, situados, preferencialmente e quando ele existia, no “triclinium” (ou seja, numa oblonga sala de jantar).
Posto isto, não se pode escamotear a verdade que os Cristãos neste séc. II, ainda andavam a explorar e a desenvolver as melhores palavras e estruturas textuais para o culto, de modo a serem fiéis à fé apostólica que lhes chegara e que desejavam transmitir, celebrar e meditar.