É possível que Camilo tenha passado por Lamego, mas é garantido que Lamego passou pela obra de Camilo.
Nascido em Lisboa – faz a 16 deste mês duzentos anos –, Camilo Castelo Branco cresceu entre Vila Real e Vilarinho de Samardã, estudou no Porto e em Coimbra, perambulou por várias terras até se estabelecer em São Miguel de Seide (Famalicão), onde pôs termo à vida em 1890.
Entretanto, Lamego não lhe era desconhecida nem tão-pouco ignorava as festas de Nossa Senhora dos Remédios.
Sintomaticamente, destas festas não lhe chegaram impressões muito favoráveis.
Numa das suas obras mais celebrizadas – «Amor de Perdição» (1861) –, um personagem confessa: “Não há ainda um ano que me fizeram “três buracos na cabeça”, quando eu fui à Senhora dos Remédios, a Lamego».
Infelizmente, a ficção iria ser validada pela realidade.
No início do século XX, em 1906, houve uma «morte à facada» na noite do arraial.
Mas o pior ocorreria no ano seguinte. Em plena procissão, desencadeou-se uma violenta peleja entre membros de duas filarmónicas. O resultado cifrou-se em muitos feridos e vários mortos.
Acresce que a presença da urbe lamecense na obra camiliana não se fica por aqui.
Em 1863, faz sair uma coletânea de dez textos a que dá o «abstruso título» (palavras suas) de «Noites de Lamego».
No brevíssimo prefácio que compõe, agracia a cidade como «interessante», acima de tudo pelos seus «excelentes presuntos que a caracterizam na história da civilização culinária».
Por sua vez, a alusão às suas noites deve-se ao facto «de serem proverbiais – em comprimento, profundidade e largura – as noites daquela terra». Lembrou-se, então, o autor de as evocar para espevitar uma «leitura de engalhar o sono rebelde» ou como «expediente para aligeirar as horas».
O escrito não versa sobre Lamego, mas sobre a época em que Camilo viveu, satirizindo – quase sempre, de forma desapiedada – os seus costumes.
A dissimulação, essa, não lhe merecia a menor contemplação. Fustigava-a implacavelmente quando, por exemplo, via «muita gente esquisita com títulos». O «barão da Penajóia» – «”Chicha” de alcunha» – e sobretudo o seu filho João Fernandes não saem incólumes das investidas da sua verve causticante.
A conduta inclassificável e o temperamento vulcânico de Camilo levaram-no a conflitos, ao cárcere, mas também ao Seminário.
Com efeito, ainda que por pouco tempo (1850-1852), foi seminarista no Porto.
Era crítico do clero coetâneo, cominando-lhe sobretudo a incipiente preparação cultural e a débil formação teológica,
Não obstante, nunca ocultou a sua condição de cristão e católico.
Pessimista impenitente, o seu fim trágico atesta, a tintas negras, que se terá tornado descrente sobretudo do homem, «que ousa sujeitar aos moldes das suas fantasias o destino da humanidade delineado pelo Criador». E, quando assim é, a noite ameaça abater-se sobre o mundo.
UM EXEMPLAR EM CADA LAR DAS «NOITES DE LAMEGO»? VAMOS A ISSO!