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A verdade que incomoda

Os tempos que correm, com tantos comentadores, nem sempre isentos levam a uma pluraridade de opiniões que criam um universo de narrativas e perceções que, por vezes, mais parecem verdades edulcoradas mentiras, com objetivos bem determinados. 

A velha máxima de que “veritas odium parit” (a verdade gera ódio) atribuída ao latino Ausónio, citada também por Santo Agostinho, e mesmo atribuída a Santo António de Lisboa, tem um sentido vulgar: é perigoso dizer a verdade, porque atirá-la ao próximo, irrita-o. Por isso se traduz que a “verdade não só gera ódio”, mas provoca ódio e isto acontece, criando inimigos ou adversários. No entanto, no evangelho diz-se que aquele que é da verdade escuta a voz de Deus. E a “verdade vos fará livres” (S.João). Mas a verdade gera ódio quando se endurece, se petrifica, se converte em fanatismo se, nua e crua, se atira aos olhos pode ser assassina. E a verdade feita lança em riste que usada como arma de combate pode produzir tantos mortos como a espada; é assassina. Por isso aquele que a prega, pode tornar-se um inquisidor, um fanático inveterado, concitando um fanatismo ou fundamentalismo. Pode isto acontecer na sociedade, religião ou na política, sob as formas mais camufladas com intuitos de bastidores. 

Karl Jaspers definia assim esse estilo de pensar: “A fanática paixão pela verdade tem carácter de acusação, de reprovação, de aniquilação, de desprestígio e de escárnio, de ostensiva superioridade. Esta paixão satisfaz o egoísmo, os instintos de se impor e rebaixar os outros. Distintivo dessa verdade é converter-se imediatamente em partido. Pergunta mais pelo adversário do que pela verdade. A posição de vencedor é a forma de tal verdade. A negação e a polémica são meras consequências”. Assim parece um ídolo de verdade, mais sabedoria de Satanás. A verdade de Deus julga o criado por amor, enquanto que a verdade diabólica julga por inveja e ódio humilhando.

Não será esta a que vemos em alguns políticos e chefes, desferindo atoardas uns aos outros sem dó nem piedade, alheios ao respeito que deveriam ter pelos cidadãos num espírito de tolerância construtiva? Alguns mais parecem inquisidores, que se congelaram na “sua” verdade, tentando metê-la a martelo na cabeça dos outros como se fossem os senhores omnipotentes, impolutos e absolutos… 

Já Voltaire dizia que o “fanatismo” produziu mais males que o ateísmo e seria a religião das feras, “se elas pudessem praticar um culto”. Bela semântica multicultural. 

O Papa João XXIII repetiu muitas vezes a “veritas in caritate” (a verdade dita com amor) recordando que os modos de dizer a verdade contam tanto como a própria verdade que se diz. A saúde consiste no equilíbrio e o respeito pelo homem é tão importante como a verdade, definindo-nos pela diferença e variedade. 

Aproximam-se as eleições. Tenta-se esquadrinhar a vida dos políticos nem sempre com as melhores intenções e preocupação pela verdade. Fazem-se julgamentos e atira-se para a rua a reputação das pessoas condenadas na praça pública. Como compensá-las, se são por vezes injustas? ...levando a feridas que nunca mais se curam? 

Mais uma vez cito a Carta de S. Tiago: – “a Sabedoria, que vem de cima é pura, pacífica, indulgente, cheia de misericórdia e o fruto da justiça semeia-se na paz”. Não será esta a misericórdia em que tanto insiste o Papa Francisco? Talvez o nosso mundo, com tantos horrores de guerra, precise de alguém que nos faça ver noutra direção.

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Rosas de Assis

22 fevereiro 2025