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Repensar Abril

Já lá vão cinquenta anos de democracia e parece que ainda foi anteontem que ela chegou; e dada a sua já meia-idade, tempo é de a submeter a um sério e necessário exame de apalpação à sua trajetória para detetar e corrigir os males que a afligem e as possíveis rugas próprias de um tanto longo e conturbado tempo já passado.

E, sem dúvida, que sempre preciso e justo se torna apalpar o pulso à situação para pensar e refletir sem paixões, medos ou falsas modéstias sobre o estado das coisas; porque, não tenhamos ilusões de que muito do que se prometeu fazer não foi feito e, até, se pensarmos em termos práticos e concisos, a nossa democracia deixa muito a desejar.

Depois, também é verdade que falar do 25 de Abril de 1974 nem sempre foi fácil, sobretudo quando certos fantasmas e inibições se abateram sobre as pessoas embotando-lhes o pensamento e a razão; e as paixões e os medos têm, sobremaneira, obstado a uma reflexão serena e lúcida sobre os cinquenta anos já vividos de vida democrática.

Ora, a qualquer observador sereno, exigente e lúcido uma conclusão lhe ressalta de imediato: a nossa democracia vai crescendo em tempo, mas um tanto enfezadinha, atribulada e tímida fisicamente; e isto porque, sendo ela feita, fundamentalmente, para democratizar, descolonizar e desenvolver, bem vistas as coisas só se conseguiu cumprir na integra, mas da forma infeliz e atabalhoada que todos conhecemos, o segundo objetivo – descolonizar – que, se bem pensarmos, acabou por ser uma afronta e nódoa negra na nossa dignidade e condição de potência colonizadora (basta vermos que nas ditas colónias continuam a predominar regimes totalitários e castradores dos direitos e deveres de liberdade, fraternidade e igualdade).

Quanto aos objetivos de democratizar e desenvolver é preciso reconhecer com coragem que ainda estão longe e muito longe de serem alcançados; para isso é suficiente pensarmos que, sobretudo o desemprego, a pobreza, a diminuição das desigualdades, as injustiças sociais, o progresso económico e a emigração da nossa juventude mais qualificada, quer académica, quer socialmente são afirmações evidentes do não cumprimento dos objetivos primordiais do 25 de Abril.

Também temos vivido tempos politicamente atribulados com governos atrás de governos e uma fragilidade enorme das instituições, permitindo muita corrupção, muitas injustiças, pouco desenvolvimento e bem-estar; e, igualmente, o atraso cultural do nosso povo que não deixa de ser um fator decisivo na lentidão e cautela com que vai enfrentando, encarando e aderindo a grandes propostas e desafios de mudança no quadro político e das reformas estruturais da vida social como sejam a Educação, a Saúde, a Justiça, a Segurança Social e a Administração tributária e fiscal.

E, muito importante e urgente é saber que vai sendo tempo e mais do que tempo de a classe política – os primeiros e principais responsáveis por este estado das coisas, crescer em formação, competência, conhecimento, seriedade e cidadania; porque a liderança não se adquire sem estas caraterísticas e, ainda, sem profissionalismo, ética e pragmatismo, acabando todos juntos por definir o espírito do verdadeiro estadista.

E, deste modo, necessário é que os políticos se deixem de fatuidades, guerras e guerrinhas partidárias e de brincarem com o fogo que é como quem diz se deixem de abusar de coisas tão sérias como sejam a paciência, a ingenuidade, a escassez de cultura e a bonomia do povo que os elege e, assim, neles confia; e, finalmente, que procurem e se esforcem por, no essencial, cumprirem os objetivos primordiais do 25 de Abril, como são a justiça social, a solidariedade, a diminuição das desigualdades, o progresso, a paz, o pão, a saúde, a habitação e o bem-estar para todos, anseios que sempre estiveram e estão no coração do povo.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

12 fevereiro 2025