O título escutei-o do sacerdote que presidiu à Eucaristia das 10:30h do último Domingo na Basílica dos Congregados no momento em que fazia o enquadramento do 22.º Domingo Comum que, acontecendo a 1 de Setembro, coincidiu com o Dia Mundial de Oração pela Criação. Não, não vou seguir aqui o desiderato do sacerdote, que não tenho conhecimento nem capacidade para tanto. Vou apenas referir-me à opção pela expressão para título. Não fechei os olhos como sugeriu a Lizzie ao João no livro “Lizzie...a companhia inesperada”, de Maria Alves Costa, mas recorrendo àquela outra sugestão da protagonista que diz que “as palavras têm vida própria, e estão à espera que as vamos buscar para lhes perceber o sentido”, dei-me conta de que as palavras que ouvira na Basílica tinham sentido análogo às que queria imprimir nesta crónica, embora não lhes tivesse colocado ainda um chapéu condizente. Já o têm.
Depois de um período de descanso estival dos governantes e dos políticos em geral, vai seguir-se um calendário de decisões, sobre as autárquicas, as presidenciais e, a curtíssimo prazo, sobre o Orçamento de Estado para 2025. Estava consensualizado que as negociações para a proposta orçamental aconteceriam em Setembro. Se derem certo, o país terá condições de governabilidade, mas, se acontecer o contrário, vamos ter que voltar a novo período eleitoral, com os transtornos que isso acarreta.
O Governo arranca o novo ano político isolado, mais isolado do que nos meses imediatamente seguintes à tomada de posse. As posições partidárias foram sendo definidas e o recomeço das actividades não parece trazer algo de novo. Nisto e naquilo, é um recomeço sem novidade. Mas, o Governo vai precisar de atitude e deixar de lado alguma altivez no discurso. Vai ter de se chegar à frente e tomar a iniciativa de abrir negociações com os que lhe restam: o Iniciativa Liberal (IL) e o Partido Socialista (PS). À direita, o Chega já disse que não está para esperar mais; resta o partido de Rui Rocha, que não vai ser condescendente, já o revelou de forma veemente. À esquerda do PS, nenhuma força partidária está disposta a viabilizar nada do que Montenegro proponha; e Pedro Nuno Santos tem andado um tanto ou quanto hesitante, mas não disse que inviabilizaria de todo o Orçamento.
Depois dos quase 6.000 milhões vertidos já para a proposta orçamental entre medidas decididas pelo Governo, pelo Parlamento e de encargos estruturais decorrentes de decisões anteriores, talvez nem haja já margem para negociar o que quer que seja. Bem, há ainda as questões que se prendem com o IRC e o IRS Jovem, mas o Orçamento é muitíssimo mais. Apesar da sua recente rentrée, o PS sente-se tão enclausurado quanto o Governo, mas o tempo é mais deste último.
Apesar de o Orçamento não ser votado neste mês de Setembro, é agora que vai levar os inputs críticos para a sua construção. Este é o tempo em que se deve iniciar a concertação ou o Governo perderá a oportunidade para conseguir viabilizar o documento. É agora que o Partido Socialista deverá pressionar o Governo a seguir a suas propostas e terá de convencer o eleitorado das suas boas intenções se vier a decidir não dar cobertura ao Executivo.
Este é ainda o tempo dos serviços de urgência de obstetrícia e ginecologia fechados. E também de umas quantas urgências pediátricas na mesma situação. Se quer “cumprir a legislatura”, o Governo tem de fazer mais do que diz que vai fazer. Não basta convencer-se de que há “instabilidade política na oposição” e imaginar que os seus líderes, de repente, vão ficar assombrados por “fantasmas”. Que não se iluda com a impressão de que o “país está com o Governo”. Enquanto o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não começar a responder como deve ser, o Governo não se pode dar como seguro. Outubro e Novembro podem bem ser meses de crise política se os dois maiores partidos portugueses não se entenderem minimamente. Quando se fala de recomeço, fala-se de um tempo melhor, de mais optimismo, de outras maneiras de ser e fazer, de outro comportamento. Será que vai acontecer?