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Roubou a Lua e pode esconder-se na Terra

Numa bela canção já com cerca de quarenta anos, Cavaleiro Andante (letra de Carlos Tê), Rui Veloso desnuda poeticamente uma personagem que, para lá de se confessar um piedoso mentiroso, pede à sua amada, entre outras coisas, que nada tema quando a rádio disser “que a América roubou a Lua”.

Já decorreram 55 anos desde que os EUA, consumando o desafio proposto pelo presidente J. F. Kennedy, colocaram um homem na Lua, projetando então de uma forma substantivamente simbólica todo o seu poderio face às demais nações, e em particular face à extinta URSS, a grande rival ideológica e militar da época.

Da Lua que a América “invadiu” pouco resultou de substantivo para o bem-estar dos americanos e dos terráqueos em geral. Entretanto, e a despeito do patrocínio ou tolerância manifesta perante regimes ditatoriais amigos (como Portugal, parceiro fundador da NATO, em 1949), depois de muitas décadas a assumir o papel de guardião do modelo democrático liberal ocidental a América dá sinais de fadiga, de retração no seu papel de potência global líder. 

Emerge agora, potencialmente, um cenário internacional assemelhado ao observado no pós-1.ª Guerra Mundial, quando os EUA, depois de terem colocado o seu robusto poderio militar ao lado do bloco que reunia predominantemente potências liberais, se decidiram por uma política internacional isolacionista. 

E hoje mais do que ontem, para lá de bons governos nacionais, o mundo bem que carece de lideranças globais esclarecidas e democráticas, amigas da liberdade. E digo “mais do que ontem” porque hoje, todos o sabemos, o poder destrutivo das armas num hipotético conflito de caráter global, como sucedeu com as 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais, é muito mais preocupante, atenta a já considerável proliferação dos arsenais nucleares.

Bem que precisávamos de um “cavaleiro” internacional, ou de dois ou três com manifesta pose de razoabilidade, para nos sentirmos, ainda que ilusoriamente, seguros. A América vai a eleições brevemente (daqui a uns escassos 100 dias) e vai decidir muito do nosso futuro, de nós portugueses e europeus designadamente. 

Os atuais líderes europeus da UE, inevitavelmente, assumem a fatalidade de a Europa ter de crescer, designadamente na capacidade militar, face à imprevisibilidade exalada pela grande potência aliada do outro lado do Atlântico. De facto, coligada a potencial retração do proeminente aliado americano com a ameaça mais acesa do lado russo, a Europa tem forçosamente de aumentar a sua despesa militar. 

O famoso “modelo social europeu” beneficiou durante décadas de uma reduzida parcela alocada pelos orçamentos dos países da UE para a defesa, “alugada” que esta estava ao patrocínio dos EUA (que, assim, ao vender muitas armas a países europeus, também viabilizavam o seu vasto complexo militar-industrial). Mas agora o famoso dilema orçamental “canhões ou manteiga” reemerge, com a vertente da manteiga (o poder de compra dos europeus, os serviços e o consumo) a perder posição relativa.

Todavia, não obstante o decaimento da sua importância na atual geopolítica internacional, a América persiste como a grande potência de projeção global. Em consonância, corroborando algumas opiniões já vindas a lume, bem que poderíamos “reclamar” que nestas eleições americanas participassem os eleitores de todo o mundo, particularmente os dos países democrático-liberais. Mas não pode nem vai ser assim, obviamente.

Nestas eleições americanas de novembro próximo, Donald Trump corporiza a vertente isolacionista do seu país, enquanto a “novíssima” Kamala Harris – endossada há dias pelo incumbente Joe Biden – ainda por descodificar plenamente perante o grande público americano e mundial, corporiza a vertente mais internacionalista dos EUA, mais conforme o papel de líder mundial que este país assumiu na maior parte do século XX e inícios do século XXI. Segundo as mais recentes sondagens, a América vacila entre um comboy solitário (Trump), que diz querer “torná-la grande outra vez”, e uma potencial “cavaleira andante” (Kamala) que, sem deixar de pensar primeiro no seu país, se propõe reclamar para a América a manutenção do papel de guardião das democracias e da liberdade. Mas ninguém melhor do que nós próprios, europeus, pode tratar das nossas vidas!

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

26 julho 2024