O betão e o aço são responsáveis por uma fatia significativa das emissões de carbono da indústria da construção. O plástico acumula-se em aterros e oceanos, e a pressão regulatória para substituí-lo é crescente. O algodão consome volumes de água e de pesticidas que se tornaram difíceis de justificar num contexto de escassez hídrica. A Europa precisa de alternativas. E Luciano de Vries acredita que uma grande parte da resposta já existe, cresce em menos de quatro meses e tem sido ignorada por razões que pouco têm a ver com a sua utilidade real.
O empreendedor holandês, sediado em Lisboa, tem acompanhado de perto a evolução do mercado do cânhamo industrial há vários anos. A sua conclusão é clara: nas próximas duas décadas, o cânhamo será um dos maiores produtos europeus. O argumento parte da versatilidade, mas termina na economia. De Vries conhece bem essa diferença.
A Matéria-Prima que a Europa Precisa
O cânhamo industrial resolve vários problemas simultaneamente.
Na construção, o hempcrete, material à base de fibra de cânhamo, tem propriedades térmicas e de regulação da humidade que o tornam competitivo em relação a soluções convencionais. Capta carbono ao longo de décadas e pode ser produzido com matéria-prima local. No têxtil, a fibra de cânhamo é mais resistente do que a de algodão, exige menos recursos hídricos e não depende de pesticidas. Na embalagem, os compostos biodegradáveis à base de cânhamo estão a obter certificações ambientais em vários mercados europeus e oferecem uma alternativa real ao plástico.
Esta sobreposição de aplicações é o que distingue o cânhamo da maioria das matérias-primas. Uma solução para a construção é valiosa. Uma solução para a construção, o têxtil e o packaging, em simultâneo, tem um perfil de mercado diferente. A Europa tem algo que outros mercados não têm em igual medida: legislação que está a criar procura obrigatória por alternativas. O Regulamento Europeu de Embalagens, as metas de eficiência energética nos edifícios e a Estratégia para o Têxtil Sustentável constroem, em conjunto, um mercado regulatório para materiais como o cânhamo antes de esse mercado ser construído pela preferência do consumidor.
Como investidor, De Vries procura as distâncias entre o valor real de um ativo e o valor que o mercado lhe atribui. No cânhamo, essa distância parece-lhe considerável.
Quando a Regulação Corre à Frente da Narrativa
O enquadramento legal do cânhamo industrial na Europa tem mudado de forma consistente. Os limites de THC para cultivo foram revistos, o número de variedades aprovadas cresceu, e o interesse institucional nas aplicações industriais da planta aumentou de forma visível. França e Alemanha têm programas ativos de investigação e de cultivo. A superfície dedicada ao cânhamo industrial na União Europeia tem crescido anualmente. Projetos de construção em hempcrete estão a ser aprovados em vários países. Marcas de grande dimensão estão a incluir fibra de cânhamo nas suas coleções. A adoção ainda é marginal em termos absolutos. Mas os movimentos iniciais de qualquer mercado em crescimento são sempre assim.
O que ainda não mudou é a narrativa pública. O cânhamo continua a ser associado, na percepção geral, à cannabis, o que atrasa o reconhecimento do seu potencial industrial por parte de investidores e empresas que poderiam estar a posicionar-se agora.
Para De Vries, esse descompasso entre a realidade regulatória e a narrativa de mercado é precisamente onde reside a oportunidade. Aconteceu com o imobiliário no Algarve, onde a Casa Vista Real Estate, cofundada com Nick Houwen, apostou em zonas subavaliadas antes do mercado ajustar a sua leitura. Aconteceu com a tecnologia: a Database.ai foi criada para integrar ferramentas de inteligência artificial às empresas quando a maioria ainda não sabia por onde começar.
O padrão repete-se. O enquadramento avança. A narrativa demora a seguir. Quem entra nesse intervalo captura a vantagem. De Vries conhece esse intervalo melhor do que a maioria.
A Janela Que Ainda Está Aberta
O mercado europeu do cânhamo industrial foi avaliado em cerca de 3,5 mil milhões de dólares em 2025. As projeções apontam para um crescimento acentuado na próxima década, com a fibra de cânhamo a liderar a adoção na construção, no setor têxtil e nas embalagens.
São números que ainda não refletem o potencial total. A adoção é marginal em comparação com o que as metas climáticas europeias vão exigir dos mercados de materiais nas próximas décadas. O cânhamo industrial está hoje onde as energias renováveis estavam há vinte anos. A trajetória é conhecida. O que varia é quem está posicionado quando a curva acelera. O cânhamo industrial já tem procura real. O que falta é escala, e a escala constrói-se antes da procura se tornar óbvia para toda a gente.
De Vries prefere chegar antes da corrida. A sua aposta no cânhamo industrial segue a mesma lógica que orientou todas as outras decisões: entrar quando o valor real supera o valor percebido, e aguardar com paciência que o mercado chegue à mesma conclusão.
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