As instalações da APPACDM, em Gualtar, Braga, passaram a contar, desde ontem, com um espaço especial, inteiramente dedicado ao património gráfico da cidade e à sua memória e identidade visual, comercial e cultural. Nasceu assim o Espaço Museológico Letras de Braga, agora apto a acolher visitantes, escolas e instituições que assumam, tal como os seus mentores, a missão de preservar, valorizar e dar a conhecer este património único da cidade.
Há dez anos atrás nascia o projeto Letras de Braga, pelo gosto, interesse e audácia do designer gráfico Nuno Dias, que tinha como objetivo fazer uma documentação fotográfica dos elementos tipográficos e gráficos da cidade de Braga.
«Comecei a fotografar e a registar todos os elementos, todos os detalhes que encontrava nas ruas, nas fachadas, placas toponímicas, cartas, caixas de correios, tudo o que me despertasse interesse, inspiração, grafismo. Para além dessa componente gráfica, o projeto revelou ter uma componente forte, nostálgica, histórica, pois a memória é constantemente despertada por estas peças», contou.
Em 2021, com a pandemia e o encerramento de várias lojas, Nuno Dias começou a resgatar peças , reconhecendo que a sua perda representava o desaparecimento da cultura e das histórias da cidade. Nessa altur, Luís Tarroso Gomes e a Velha-a-Branca (que também se dedicava à recolha do espólio do comércio desaparecido) juntam-se ao projeto e a partir daí surge um “boom” de peças.
«Temos, atualmente, 60 peças de grande escala e foram-nos dando peças mais pequenas, material gráfico, reclames que foram sendo salvos. Há peças que resgatámos , outras que conseguimos de lojas que iam fechando. Tentamos salvaguardar as peças mais antigas, que também têm mais aquela componente humana, com um design diferente e pormenores feitos à mão», explicou Nuno Dias, realçando que «hoje o design, os materiais e as técnicas são diferentes, pois é tudo digital».

Quando já tinham em sua posse um grande número de peças, confrontaram-se com a necessidade de arranjar um espaço para o projeto alavancar e é aí que entra, em 2024, a APPACDM e os convida a visitar as instalações, com o objetivo de abrir cada vez mais a instituição à comunidade..
Luís Tarroso Gomes adiantou que a exposição será permanente, estando previstos Open Days e a criação de parcerias e protocolos com universidades, escolas e instituições educativas que possam levar ao local os seus alunos. Outros dos projetos passa por desafiar o Departamento de História da Universidade do Minho a trabalhar este tema, interessando os seus alunos para que investiguem a história destas peças.
Previstas estão outras iniciativas e projetos que possam interligar a arte contemporânea com a história e com a memória, como apresentações de livros, tertúlias, ou outras.
O presidente da direção da APPACDM, Bruno Silva, esclareceu que a APPACDM tem na sua direção, elementos que já tinham sinergias com a Velha-a-Branca, e que conheciam o projeto da Letras de Braga.
«E fazia todo o sentido, dado o legado histórico que nós temos, porque a APPACDM é, nas sua génes, a maior editora gráfica do setor social em Portugal, nós contribuirmos, quando eles precisavam de um espaço».
A ideia passa ainda por expandir, aproveitando os dois pavilhões existentes na APPACDM, de forma a expor máquinas recolhidas pela Velha-a-Branca e outro espólio.
Na inauguração marcou também presença a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Braga, Catarina Miranda, que enalteceu o projeto e o novo espaço museológico, que já tivera oportunidade de visitar.
«É um projeto de grande importância para a cidade, conttuindo mais uma das formas de preservar a imagem que desaparece», afirmou.
A vereadora da Cultura avançou que o Município pretende também dar o seu contributo para o projeto, e está a preparar ações de sensibilização destinadas aos funcionários da AGERE que fazem a recolha, para a identificação de eventuais letreiros ou outro tipo de espólio ou documentação importante, de maneira a contribuir para o seu resgate.
Por seu turno, o presidente da Associação Empresarial de Braga (AEB), Daniel Vilaça salientou que «é uma forma de reconhecer a importância do comércio na memória da cidade».
Daniel Vilaça defendeu também que os letreiros em exposição o podem também servir de exemplo para os novos empreendedores se inspirarem na construção das suas próprias marcas identitárias e deixou ainda o apelo aos empresários da cidade para que contribuam para o projeto, salientando o «enorme orgulho em fazer parte deste espólio que marca a identidade da cidade».