A Confraria Gastronómica do Abade está a iniciar um novo ciclo, com Rui Rua como Juiz Presidente da Direção para o triénio 2026-2028.
O ato eleitoral para os órgãos sociais decorreu na passada quarta-feira, na Quinta d’Aldeia, em Gême, Vila Verde, precedendo o jantar confrádico mensal.
O novo presidente encerra o período de 17 anos nos quais Agostinho Peixoto esteve à frente dos destinos desta organização de promoção das tradições gastronómicas e vínicas. Este responsável passa agora a presidir à Mesa da Assembleia Geral e Manuel Santos ao Conselho Fiscal.
Após ser empossado, perante os membros da confraria, Rui Rua destacou a dificuldade de substituir Agostinho Peixoto no cargo. Contudo, referiu que com o apoio do antecessor e de todos os confrades será possível «manter a confraria num patamar elevado, honrando o passado e construindo um futuro ainda mais promissor», num «espírito de equipa, amizade e dedicação».
O presidente da direção disse que «a Confraria Gastronómica do Abade é hoje uma referência gastronómica incontornável, dessas que dispensam apresentações e impõem respeito – e apetite. Falar dela é falar de tradição, de identidade e de um património que não se limita ao prato: estende-se à história, à cultura e ao prazer de bem comer».
Olhando para o passado, recordou que «tudo começou com um grupo de pessoas que decidiu reunir-se periodicamente em torno da gastronomia, movidas por um objetivo nobre e altruísta: promover, divulgar e preservar um prato, um produto ou uma tradição culinária regional. Um trabalho árduo, exigente, que implicou longas horas à mesa, provas sucessivas e um espírito de sacrifício verdadeiramente confrádico». A Confraria Gastronómica do Abade foi constituída no dia 9 de novembro de 2004, por 11 fundadores.
Na sua opinião, passados 21 anos, a «pujança, entusiasmo e espírito de união» são motivo de «grande orgulho». «Nada disto aconteceu por acaso. Foi possível graças ao trabalho árduo, dedicado e muitas vezes silencioso dos confrades, que ao longo dos anos souberam honrar os seus valores, preservar as suas tradições e projetá-las para o futuro».
Rui Rua manifestou o «dever de gratidão» aos que contribuíram para a história da organização, com palavas especiais para o Grão-Mestre e o Juiz Presidente da Direção cessantes, Miguel Louro e Agostinho Peixoto, respetivamente.
Preservar e promover a gastronomia
O presidente da Confraria Gastronómica do Abade explicou que o espírito de união manifesta-se no jantar que se realiza todos os meses. Em declarações ao Diário do Minho, assegurou que esta «é uma tradição para manter». «Se estamos a preservar a nossa gastronomia, temos de degustar os pratos que os nossos restaurantes apresentam. Esta é uma forma de se divulgarem os restaurantes e, naturalmente, a gastronomia portuguesa», explicou.
Rui Rua lembrou que os jantares têm sempre um convidado, que «tanto pode estar ligado à gastronomia ou a outras atividades». «É importante fazermos esta harmonização entre a cultura e a gastronomia», enfatizou.
Perspetivando as atividades que vão ser realizadas, adiantou a intenção de organizar “showcookings” e apresentações gastronómicas, especialmente do Pudim Abade de Priscos e de outras receitas do padre Manuel Joaquim Machado Rebelo.
Outra área vai ser a dinamização da sede, em Priscos, com sessões gastronómicas, convidando pasteleiros para demonstrações do pudim, colóquios e apresentações. «Em colaboração com o padre João Torres, que criou um museu dedicado ao Abade de Priscos, gostaria de fazer alguma parceria para dinamizar ambos os espaços», revelou.
Promover pudim como ex-libris da doçaria
O presidente da Confraria Gastronómica do Abade, Rui Rua, lembrou que o Pudim Abade de Priscos foi criado pelo padre Manuel Joaquim Machado Rebelo, «figura iluminada da cozinha tradicional e verdadeiro alquimista do açúcar e não só».
Em seu entender, o Pudim Abade de Priscos é «incomparável» e «ex-libris da nossa doçaria nacional». É «um doce que atravessou gerações, conquistou paladares e provou que a gastronomia também pode ser uma forma elevada de espiritualidade», declarou.
«Este pudim não é apenas uma sobremesa. É história líquida, tradição solidificada e, acima de tudo, uma excelente motivo para marcar mais um encontro da confraria», acrescentou.
Instituição gastronómica cada vez mais virada para a comunidade
O presidente da Mesa da Assembleia Geral, Agostinho Peixoto, espera que a Confraria Gastronómica do Abade esteja «cada vez mais virada para a comunidade».
Na continuidade dos 17 anos à frente da direção, o agora grão-mestre da organização gastronómica defende uma «confraria mais interventiva na investigação da gastronomia local e regional. E, sobretudo, uma confraria muito preocupada com os assuntos mais sociais e económicos da sociedade».
«Acho que as confrarias gastronómicas e vínicas, mas sobretudo a nossa, que é gastronómica, deve ter uma preocupação de ter uma intervenção de ajuda às necessidades que vai encontrando no que diz respeito à parte social. E aqui refiro-me concretamente às pessoas que, por exemplo, necessitam de formação. Pode ser uma alternativa muito interessante para encontrar emprego, nomeadamente na área da gastronomia, área da cozinha e área de vinhos, por exemplo. São preocupações que a confraria deve, de alguma forma, consubstanciar nos seus planos», declara.
Em seu entender, estarão reunidas as condições para a fundação da secção jovem da confraria, para além da criação da área da comunicação.
Em declarações ao Diário do Minho, este responsável considera que a confraria tem que ensinar a fazer o Pudim Abade de Priscos, uma vez que há muitos contactos a pedirem a receita e o modo de a confecionar, culminando com a certificação do receituário da confraria.
«O que a confraria construiu é notável»
Na última intervenção como presidente da direção da Confraria Gastronómica do Abade, Agostinho Peixoto sublinhou que o que esta organização construiu «é notável: um percurso firme, paciente, feito de resiliência e coerência – alicerçado em valores que parecem simples, mas são os mais altos no respeito pelo próximo, no cuidado pelo próximo, na dedicação ao próximo».
«Entre a boa cozinha bracarense, o convívio que aquece e a prova de grandes vinhos, foi assim que nasceu – e foi assim, dia após dia, que se foi fazendo – a Confraria Gastronómica do Abade: não apenas uma casa de sabores, mas um lugar onde a humanidade encontra mesa, e a mesa encontra sentido», disse, deixando um «obrigado sentido» a quem contribiu para o engrandecimento da organização.
A confraria conta com 48 confrades, tendo já sido aprovada a entrada de mais oito. Ao longo de 21 anos, foram realizados 227 jantares e provados aproximadamente 2700 vinhos.
«Encerramos um ciclo brilhante. Vivemos momentos inesquecíveis que reforçaram o que realmente nos une: gastronomia, vinhos, cultura e tradição. As conquistas contam, mas contam ainda mais as amizades que fizemos, as noites de entrega, o trabalho partilhado que elevou a confraria, com o apoio de todos. Saio deste ciclo de 17 anos com gratidão e orgulho nas sementes que plantámos – e com confiança na equipa que toma posse. Que a chama da confraria permaneça acesa, iluminando caminhos de amizade, sabor e tradição», concluiu.
Vivevinu assume vinhos da Casa de Compostela
A Vinevinu, projeto lançado por Manuel e Luís Cerdeira, vai assumir os vinhos da Casa de Compostela, em Requião, Vila Nova de Famalicão.
A revelação foi feita no jantar da Confraria Gastronómica do Abade, que contou com a presença do enólogo da Casa de Compostela, Joaquim Dias, e de Luís Cerdeira.
Os dois responsáveis explicaram que, este ano, a Vinevuni vai assumir a vinificação e comercialização do portfólio das marcas da Casa de Compostela, unidade agrícola criada pelo empresário têxtil Manuel Gonçalves.
Com 36 anos de ligação à Casa de Compostela, Joaquim Dias diz que a empresa acompanhou a «evolução muito grande» que se registou nos Vinhos Verdes. Entre o legado está a introdução de Alvarinho e de Sauvignon Blanc, que agora vão ter continuidade com a interperação da Vinevinu, embora mantendo a marca própria.
O projeto de Luís, pai, e Manuel Cerdeira, filho, arrancou em 2024, na Casa de Compostela, que constui o núcleo Mar, a par de Melgaço, o polo Montanha.
Entre outros vinhos, os confrades tiveram oportunidade de provar o “Gerações 2025”, um 100% Alvarinho que «propõe uma síntese entre duas identidades históricas da sub-região Monção e Melgaço: o vale, com a sua riqueza aromática, e a altitude, com a sua acidez firme e precisão mineral», que foi apresentado no passado mês de dezembro. Esteve também à prova o “CIMA 2024”, exclusivamente de vinhas em altitude, outra das novidades do projeto.