twitter

Confraria Gastronómica do Abade inicia novo ciclo com presidência de Rui Rua

Fotografia Miguel Viegas

Luísa Teresa Ribeiro

Chefe de Redação

Publicado em 12 de janeiro de 2026, às 22:45

Nova direção quer honrar o passado e construir «um futuro ainda mais promissor».

A Confraria Gastronómica do Abade está a iniciar um novo ciclo, com Rui Rua como Juiz Presidente da Direção para o triénio 2026-2028.

O ato eleitoral para os órgãos sociais decorreu na passada quarta-feira, na Quinta d’Aldeia, em Gême, Vila Verde, precedendo o jantar confrádico mensal.

O novo presidente encerra o período de 17 anos nos quais Agostinho Peixoto esteve à frente dos destinos desta organização de promoção das tradições gastronómicas e vínicas. Este responsável passa agora a presidir à Mesa da Assembleia Geral e Manuel Santos ao Conselho Fiscal.

Após ser empossado, perante os membros da confraria, Rui Rua destacou a dificuldade de substituir Agostinho Peixoto no cargo. Contudo, referiu que com o apoio do antecessor e de todos os confrades será possível «manter a confraria num patamar elevado, honrando o passado e construindo um futuro ainda mais promissor», num «espírito de equipa, amizade e dedicação».

O presidente da direção disse que «a Confraria Gastronómica do Abade é hoje uma referência gastronómica incontornável, dessas que dispensam apresentações e impõem respeito – e apetite. Falar dela é falar de tradição, de identidade e de um património que não se limita ao prato: estende-se à história, à cultura e ao prazer de bem comer».

Olhando para o passado, recordou que «tudo começou com um grupo de pessoas que decidiu reunir-se periodicamente em torno da gastronomia, movidas por um objetivo nobre e altruísta: promover, divulgar e preservar um prato, um produto ou uma tradição culinária regional. Um trabalho árduo, exigente, que implicou longas horas à mesa, provas sucessivas e um espírito de sacrifício verdadeiramente confrádico». A Confraria Gastronómica do Abade foi constituída no dia 9 de novembro de 2004, por 11 fundadores.

Na sua opinião, passados 21 anos, a «pujança, entusiasmo e espírito de união» são motivo de «grande orgulho». «Nada disto aconteceu por acaso. Foi possível graças ao trabalho árduo, dedicado e muitas vezes silencioso dos confrades, que ao longo dos anos souberam honrar os seus valores, preservar as suas tradições e projetá-las para o futuro».

Rui Rua manifestou o «dever de gratidão» aos que contribuíram para a história da organização, com palavas especiais para o Grão-Mestre e o Juiz Presidente da Direção cessantes, Miguel Louro e Agostinho Peixoto, respetivamente.

 

Preservar e promover a gastronomia

O presidente da Confraria Gastronómica do Abade explicou que o espírito de união manifesta-se no jantar que se realiza todos os meses. Em declarações ao Diário do Minho, assegurou que esta «é uma tradição para manter». «Se estamos a preservar a nossa gastronomia, temos de degustar os pratos que os nossos restaurantes apresentam. Esta é uma forma de se divulgarem os restaurantes e, naturalmente, a gastronomia portuguesa», explicou.

Rui Rua lembrou que os jantares têm sempre um convidado, que «tanto pode estar ligado à gastronomia ou a outras atividades». «É importante fazermos esta harmonização entre a cultura e a gastronomia», enfatizou.

Perspetivando as atividades que vão ser realizadas, adiantou a intenção de organizar “showcookings” e apresentações gastronómicas, especialmente do Pudim Abade de Priscos e de outras receitas do padre Manuel Joaquim Machado Rebelo.

Outra área vai ser a dinamização da sede, em Priscos, com sessões gastronómicas, convidando pasteleiros para demonstrações do pudim, colóquios e apresentações. «Em colaboração com o padre João Torres, que criou um museu dedicado ao Abade de Priscos, gostaria de fazer alguma parceria para dinamizar ambos os espaços», revelou.

 

Promover pudim como ex-libris da doçaria

O presidente da Confraria Gastronómica do Abade, Rui Rua, lembrou que o Pudim Abade de Priscos foi criado pelo padre Manuel Joaquim Machado Rebelo, «figura iluminada da cozinha tradicional e verdadeiro alquimista do açúcar e não só».

Em seu entender, o Pudim Abade de Priscos é «incomparável» e «ex-libris da nossa doçaria nacional». É «um doce que atravessou gerações, conquistou paladares e provou que a gastronomia também pode ser uma forma elevada de espiritualidade», declarou.

«Este pudim não é apenas uma sobremesa. É história líquida, tradição solidificada e, acima de tudo, uma excelente motivo para marcar mais um encontro da confraria», acrescentou.

 

Instituição gastronómica cada vez mais virada para a comunidade

O presidente da Mesa da Assembleia Geral, Agostinho Peixoto, espera que a Confraria Gastronómica do Abade esteja «cada vez mais virada para a comunidade».

Na continuidade dos 17 anos à frente da direção, o agora grão-mestre da organização gastronómica defende uma «confraria mais interventiva na investigação da gastronomia local e regional. E, sobretudo, uma confraria muito preocupada com os assuntos mais sociais e económicos da sociedade».

«Acho que as confrarias gastronómicas e vínicas, mas sobretudo a nossa, que é gastronómica, deve ter uma preocupação de ter uma intervenção de ajuda às necessidades que vai encontrando no que diz respeito à parte social. E aqui refiro-me concretamente às pessoas que, por exemplo, necessitam de formação. Pode ser uma alternativa muito interessante para encontrar emprego, nomeadamente na área da gastronomia, área da cozinha e área de vinhos, por exemplo. São preocupações que a confraria deve, de alguma forma, consubstanciar nos seus planos», declara.

Em seu entender, estarão reunidas as condições para a fundação da secção jovem da confraria, para além da criação da área da comunicação.

Em declarações ao Diário do Minho, este responsável considera que a confraria tem que ensinar a fazer o Pudim Abade de Priscos, uma vez que há muitos contactos a pedirem a receita e o modo de a confecionar, culminando com a certificação do receituário da confraria.

 

«O que a confraria construiu é notável»

Na última intervenção como presidente da direção da Confraria Gastronómica do Abade, Agostinho Peixoto sublinhou que o que esta organização construiu «é notável: um percurso firme, paciente, feito de resiliência e coerência – alicerçado em valores que parecem simples, mas são os mais altos no respeito pelo próximo, no cuidado pelo próximo, na dedicação ao próximo».

«Entre a boa cozinha bracarense, o convívio que aquece e a prova de grandes vinhos, foi assim que nasceu – e foi assim, dia após dia, que se foi fazendo – a Confraria Gastronómica do Abade: não apenas uma casa de sabores, mas um lugar onde a humanidade encontra mesa, e a mesa encontra sentido», disse, deixando um «obrigado sentido» a quem contribiu para o engrandecimento da organização.

A confraria conta com 48 confrades, tendo já sido aprovada a entrada de mais oito. Ao longo de 21 anos, foram realizados 227 jantares e provados aproximadamente 2700 vinhos.

«Encerramos um ciclo brilhante. Vivemos momentos inesquecíveis que reforçaram o que realmente nos une: gastronomia, vinhos, cultura e tradição. As conquistas contam, mas contam ainda mais as amizades que fizemos, as noites de entrega, o trabalho partilhado que elevou a confraria, com o apoio de todos. Saio deste ciclo de 17 anos com gratidão e orgulho nas sementes que plantámos – e com confiança na equipa que toma posse. Que a chama da confraria permaneça acesa, iluminando caminhos de amizade, sabor e tradição», concluiu.

 

Vivevinu assume vinhos da Casa de Compostela

A Vinevinu, projeto lançado por Manuel e Luís Cerdeira, vai assumir os vinhos da Casa de Compostela, em Requião, Vila Nova de Famalicão.

A revelação foi feita no jantar da Confraria Gastronómica do Abade, que contou com a presença do enólogo da Casa de Compostela, Joaquim Dias, e de Luís Cerdeira.

Os dois responsáveis explicaram que, este ano, a Vinevuni vai assumir a vinificação e comercialização do portfólio das marcas da Casa de Compostela, unidade agrícola criada pelo empresário têxtil Manuel Gonçalves.

Com 36 anos de ligação à Casa de Compostela, Joaquim Dias diz que a empresa acompanhou a «evolução muito grande» que se registou nos Vinhos Verdes. Entre o legado está a introdução de Alvarinho e de Sauvignon Blanc, que agora vão ter continuidade com a interperação da Vinevinu, embora mantendo a marca própria.

O projeto de Luís, pai, e Manuel Cerdeira, filho, arrancou em 2024, na Casa de Compostela, que constui o núcleo Mar, a par de Melgaço, o polo Montanha.

Entre outros vinhos, os confrades tiveram oportunidade de provar o “Gerações 2025”, um 100% Alvarinho que «propõe uma síntese entre duas identidades históricas da sub-região Monção e Melgaço: o vale, com a sua riqueza aromática, e a altitude, com a sua acidez firme e precisão mineral», que foi apresentado no passado mês de dezembro. Esteve também à prova o “CIMA 2024”, exclusivamente de vinhas em altitude, outra das novidades do projeto.