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O devorismo do poder

Os hospitais estão cheios de doentes, e os manicómios, com alguns apenas. Hádoentes cuja medicação ainda é preciso descobrir, e há loucos que as autoridades e o país desconhecem. Quanto aos loucos encapuzados, retirem-se dos manicómios os oficializados e coloquem-se lá aqueles. Onde se encontram? Na rua ou no poder.

Artur Soares
19 Out 2012

Temos no país os artistas da Olaria que sabem trabalhar o barro, e há artistas verdadeiramente importantes. Mas um Oleiro que fabricasse terrinas capazes de expor as maldades e a loucura de tantos, ainda não surgiu. E é pena, pois todos lucrariam.
Tem de ser o povo que sofre a “expor” as maldades, as velhacarias e o sofrimento que os deuses – que nem a Deus dizem nada – nos infligem. Muita estranha política se faz em Portugal, enquanto a ação social falha, e tem sido desde sempre a vergonha de todos os tempos. Os políticos sempre e apenas pensaram em si mesmos e nos grupos onde obedecem, bem conhecidos.
Têm apelado praticamente todos os nossos Bispos – e D. Jorge Ortiga tem-no feito duma forma constante – para que haja “estabilidade política e equidade nos sacrifícios” exigidos a todos, e não se têm cansado de avisar do “direito ao trabalho” diante da atual crise.
Por isso mesmo, alguém escreveu que “o mundo necessita de obras que afastem o desencanto e a desilusão; são necessárias ações concretas que incomodem a quietude de quem deveria resolver os problemas fundamentais”.
Em Portugal, o fundamental da vida dos portugueses nunca se resolveu. E quando algo se foi fazendo, ou era tarde, ou estava velho ou outros nos substituíram.
Há centenas de anos atrás, tivemos a “Troica Filipina” que algemou e sacou os portugueses durante sessenta anos. Hoje, em qualquer rua, praça, largo, ribeiro ou rio e até no mar, sentimos o cheiro da moderna “troicada” que, não se sabendo bem quem são nem quem os tange, nos vai cadeando e abafando até à exaustão, sem que o povo seja o verdadeiro culpado.
Somos pedintes, sempre fomos pedintes e isso recordou, há dias, o grande e prestigiado professor Adriano Moreira: “sempre vivemos de empréstimos”, afirmou.
Em “A Lanterna”, que era um órgão de informação em Portugal no ano de 1870, uma tal Maria Luísa Guerra escreveu, a 17 de dezembro desse ano: “o governo português anda a mendigar em Londres um novo empréstimo. Os nossos charlatães não sabem senão estes dois métodos de governo: empréstimos e impostos. Isto é dinheiro emprestado e dinheiro espoliado. Pede-se primeiro aos agiotas para pagar às camarilhas; depois tira-se ao povo para pagar aos agiotas, para as extravagâncias do governo e para dar guarida económica aos filhos, netos, bisnetos e entea-
dos” de quem governa.
Hoje, também como ontem, eis o devorismo do poder!
A Austrália, um dos países ricos deste nosso tempo, tem 22 milhões de habitantes e apenas possui 150 deputados. Portugal, com 650 quilómetros de comprimento e 300 de largura, dá-se ao luxo de ter no continente e ilhas 3 governos; 333 deputados; 308 câmaras; 4259 freguesias; 1770 vereadores; 30.000 carros; 40.000 fundações e associações; 500 assessores locais; 1284 serviços públicos e 119 Observatórios locais, que jamais se justificarão e nada “observarão”.
Somos assim e andamos nisto!
Portugal, a ter um número de deputados equivalente à Alemanha, teria de reduzir, em muito mais de 50%, aqueles que nos dizem servir.
O povo português tem de estar atento e tem que aprender a analisar as afirmações dos governantes, ler nas entrelinhas, distinguir o chorrilho de mentiras durante as campanhas eleitorais e aprender a votar nos programas de governo e não nas pessoas que beijocam todo o mundo nas feiras, durante tais campanhas.
Na verdade, há pessoas que, em qualquer lado, vivem indiferentes a tudo e a todos. Outros, ainda piores, parecem teleguiados ou algemados, deixando-se moldar ao sabor dos oportunistas sem pejo. Há por isso que viver atento e ser responsável pelo que se foi e pelo que se é. Não o sendo, pode “confessar-se” sem culpas, mas, quanto a méritos, dificilmente os terá, e quanto a prémios é impossível obtê-los.




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