Fotografia:
Avó x 6

Vem este texto na sequência de um que li, em recente edição do Diário do Minho, assinado pelo seu diretor, Dr. Silva Pereira, de quem tive o privilégio de ser aluna durante alguns dos meus 5 anos de universidade.Falava-nos o Dr. Silva Pereira do seu encantamento por ser AVÔ.

Maria Luísa Lamela
26 Jul 2012

Adorei o texto. Com a qualidade literária de que o autor é, naturalmente, exímio praticante, o texto veicula, de forma genuína e viva, a expressão de sentimentos de imensa ternura, de arrebatamento e enlevo, diante dos meninos que agora olha «com os olhos corrigidos pelo tempo» e cuja presença faz parecer voltar atrás a marcha inexorável do mesmo tempo.
O texto, caros leitores, é uma delícia, com uma menina a lembrar ao avô que lhe disse ontem que amanhã é hoje, e um menino que, ouvindo o avô dizer que vai para velho, diz que quer ir com ele.
Não fosse a excelência redatorial, que não alcanço, do dito texto, poderia subscrevê-lo, salvaguardadas as adaptações à entrada em cena de novos atores. Decidi então, em jeito de continua-ção do sumário do artigo anterior, escrever também sobre a minha experiência de avó, de “hexavó”, Vovoinha, como os 6 meninos me tratam.
Tal como o meu ex-professor, guardo no arquivo da memória flashes interessantes, cómicos alguns, sérios outros tantos, enternecedores todos, protagonizados pelos 6.
Um deles, o mais velho, filho da minha filha, disse-me há dias, depois de longa conversa sobre a escola e os estudos, esta coisa perturbadora: “Vovoinha, tu não podes morrer”! O coração sobressaltou-se, os olhos humedeceram, a alma enredou-se numa teia de emoções – a alegria de sentir um neto já crescidinho, 10 anos, tão preso a mim, e a antevisão da separação definitiva a que, se Deus quiser, a lei natural da vida há-de conduzir.
Este rapaz já crescido tem um irmão mais novo quase 4 anos, a quem, em círculo familiar restrito, chamamos Becas, e que nunca, ou quase nunca, quer comer, transformando as horas das refeições em horas de tortura para ele e para os pais. Postos os dados indispensáveis à compreensão do próximo episódio, cá vai:
Estando os dois irmãos a jantar em minha casa, zanguei-me com o Becas, por não terem surtido efeito todas as minhas tentativas para ele comer. Zanguei-me e ralhei-lhe. Eis senão quando, sai o irmão mais velho em sua defesa, dizendo que eu, Vovoinha, podia ser um bocadinho mais meiga a ralhar. Respondi-lhe que, se estou a ralhar, é porque estou zangada, e não posso ser meiga. A esta resposta fez o Becas, pequeno alvo do meu ralhete, o seguinte reparo: “podes, podes, é só chamares-me Bequinhas”!
E volta a ser o Becas o protagonista duma cena algo cómica, sucedida por altura do Natal de 2010.
Pedi aos 4 netos mais velhos que fizessem um desenho alusivo ao nascimento do Menino Jesus e, para o efeito, distribuí cartões pequenos, brancos, cujo destino seriam os azulejos da cozinha, onde ficariam afixados durante a época natalícia. Entusiasmados com a ideia da exposição, sentaram-se os 4 à mesa da cozinha, dando saída à tarefa. O nosso Becas, o mais novinho dos 4, acabou o desenho e veio mostrar-mo, com a seguinte explicação:
– Vovoinha, eu fiz os Reis Magos nos camelos, mas cheguei à ponta do cartão e um camelo não cabe. Este aqui pode ir a pé? – perguntou, apontando o desventurado caminhante que ficara sem camelo.
Os desenhos continuam nos azulejos, e o Rei Mago lá vai a pé para Belém ao encontro do Menino Jesus.
Remato o presente relato dando o palco às meninas, filhas do meu filho. Cito uma “tirada” da mais velhinha, ocorrida há uns três anos, não sem antes referir que a outra avó é pediatra e se chama Leonor. A “tirada” da Rita é assim:
A vovó Nonô trata da nossa saúde, a Vovoinha trata da nossa alegria.
Que bem definidas ficaram as funções das duas avós, que as meninas adoram e as adoram a elas!
Com espetacular matemática, a mãe dos dois rapazes tem agora uma menina pequena, ainda sem currículo linguístico, enquanto o pai das duas meninas tem agora um rapaz de 3 anos. Para um rapaz de 3 anos, mostrar sabedoria vocabular é, sem dúvida, aposta firme, e a grande vitória exibe-se, heroicamente, nas palavras mais arrevesadas, tipo frigorífico, hipopótamo ou tartaruga, expoente máximo dessa sabedoria. Eis o motivo por que o pirralhinho do tamanho do chão aproveitou uma pergunta sobre o porquê de estar a contorcer-se muito, para dizer “tenho uma tartaruga nas cuecas”.
Passo quase todas as férias com estes netos num pequeno paraíso da Barca do Lago, em Esposende. É um tempo maravilhoso, que não troco por nenhum outro. Mas, tal como diz o meu ilustre ex-professor no seu admirável texto, se não tiver de ir, no fim das férias, medir a tensão arterial à Cruz Vermelha, tenho pelo menos de dar descanso aos ouvidos, cheios de vozes de meninos alegres e vivos, que querem todos contar tudo ao mesmo tempo, que riem alto e cantam alto, mas que, mais do que cantam, me encantam. Ficam os ecos, à espera das férias seguintes, e eu não me importo de que o tempo vá voando.




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