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Vladimir Putin nunca leu Guerra e Paz de Lev Tolstoi

Vladimir Putin, pouco depois de ter invadido a Ucrânia, em fevereiro deste ano, acusou o ocidente de estar a negar a importância da cultura russa, representada por vultos como Tolstoi, Dostoievski, Tchaikovsky, Tchekhov e outros, quando foi condenado quase unanimemente por aquele seu atentado contra a soberania de um país independente.

Desde logo achei tal acusação destituída de fundamento porque o ocidente nada tem contra a cultura russa, e a prova disso está no facto de todos aqueles autores continuarem a ser editados, lidos, tocados e representados em todo o mundo, com particular incidência na Europa. Na verdade, quem atenta contra a grandeza da cultura russa é o próprio Kremlin, porquanto todos aqueles autores foram pacifistas a seu modo e todos puseram a arte – o romance, a música e o teatro – ao serviço dos valores mais sublimes da condição humana, como sejam a liberdade, o amor, a tolerância, a justiça, a concórdia entre os povos, etc.

Dostoievski foi contra a autocracia dos príncipes latifundiários e lutou pelos direitos dos explorados e dos escravos que ainda havia na sociedade do seu tempo, e por via disso esteve para ser fuzilado; Tolstoi, também ele escritor de inspiração cristã, pregou nas suas obras a doutrina do amor ao próximo e afirmou-se como um dos mais tenazes opositores da guerra enquanto instrumento de resolução de problemas internacionais. O seu distanciamento do poder político e religioso valeu-lhe a excomunhão da Igreja ortodoxa russa.

Tchekhov e Tchaikovsky vão no mesmo sentido dos seus compatriotas, um com um teatro repassado de compreensão pelas fragilidades da alma humana; outro com uma música otimista, fulgurante e tributária do maravilhoso encanto da festa da vida, como prodigioso contraponto do pessimismo social, da dissolução dos costumes e da cultura da morte.

Ora, se Putin estivesse influído do espírito sublime e humanista destes grandes criadores russos jamais desencadearia uma guerra que contradiz de modo radical os princípios enunciados em obras como Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazov, O Tio Vânia, o Quebra-Nozes, etc. Mas Putin não leu estes autores; ou se leu, não os compreendeu, apesar de a linguagem de Tolstoi, por exemplo, ser de um tal realismo impressivo que ninguém a pode ignorar ou deixar de perceber. Vejamos o que diz em Guerra e Paz a propósito da invasão da Rússia por Napoleão:

«A 12 de junho […] começou a guerra; isto é, deu-se um acontecimento contrário à razão e a toda a natureza humana. Milhões de homens cometeram crimes entre si, enganos, traições, roubos, fraudes e emissões de dinheiro falso, pilhagens, incêndios e assassínios em tão grande número que os arquivos de todos os tribunais do mundo seriam incapazes de os reunir em séculos inteiros.» Napoleão, há pouco mais de duzentos anos, levado por um capricho pessoal – sede de poder e glória – invadiu a Rússia com um exército de 600 mil homens, semeando a morte até Moscovo, cidade que saqueou, incendiou e ocupou.

A propósito desse abuso imperialista, ouçamos o que diz o jovem conde André Bolkonski, ainda parente do autor: «Os franceses arruinaram a minha casa e querem arruinar Moscovo, ultrajaram-me e ultrajam-me a cada instante. São meus inimigos, são todos criminosos, na minha opinião. É preciso castigá-los. Se são meus inimigos, não podem ser meus amigos, apesar de todas as negociações de Tilsitt.» André Bolkonski acabaria por morrer na sequência de um ferimento recebido na batalha de Borodino.

Que diria Putin se tivesse lido esta passagem do romance de Tolstoi? Não está ele a fazer aos ucranianos o que Napoleão fez aos russos? E não estará também ele a levar a cabo uma empresa político-militar que a prazo poderá ditar a sua perdição? Fará sentido que o líder de uma grande nação esteja possuído pela paixão do belicismo egolátrico, na linha de um revivalismo czarista degenerado? Putin, se tivesse lido Tolstoi, saberia que Napoleão teve de fugir da Rússia, sem nada ter alcançado, e que três anos após foi obrigado a capitular em Paris.

É um crime inqualificável arrastar os povos para a guerra: Napoleão errou, Hitler errou, Putin erra. O que um prisioneiro napoleónico disse a Pierre Bezukhov, personagem-símbolo da alma russa, poderia ser aplicado à situação ucraniana: «Se todos os russos são parecidos consigo, é um sacrilégio fazer guerra a um povo, como o vosso.» Mutatis mutandis, é um sacrilégio fazer guerra a um povo tão bom, como o ucraniano.


Autor: Fernando Pinheiro
DM

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4 novembro 2022