1. Na encíclica Deus é Amor Bento XVI lembra que a natureza íntima da Igreja se exprime num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus, celebração dos Sacramentos, serviço da Caridade (n.º 25).
E acrescenta:
«São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência».
2. Diz também Bento XVI que «com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer género pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho. A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra» (n.º 22).
3. Diz-se nos Atos dos Apóstolos que na comunidade cristã de Jerusalém não havia necessitados porque quem tinha mais repartia com quem não possuía o necessário.
Assim foi ontem e assim deve ser hoje. «A Igreja, escreve também Bento XVI, é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário» (n.º 25).
Nos três serviços básicos da Igreja – a Palavra, os Sacramentos, a Caridade – os dois primeiros são, sobretudo, função dos ministérios ordenados: bispos, sacerdotes, diáconos. O serviço da Caridade devidamente organizado é campo aberto à atividade dos leigos.
É de salientar, no entanto, que o serviço da Caridade é dever de todos. Uma das formas de o concretizar é a prática das obras de misericórdia, tanto corporais como espirituais.
4. Num mundo onde impera o egoísmo e até se fomentam guerras para incrementar interesseiros negócios é necessário que nós, os cristãos, dêmos ao mundo o «escândalo» de nos amarmos verdadeiramente.
Lembro o que se lê no número 24 da citada encíclica:
«Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada.
Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão.
Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas.
Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo.
Numa das suas cartas escrevera que o único aspeto do cristianismo que o maravilhava era a atividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma atividade equivalente na sua religião.
Os «Galileus» — dizia ele — tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, se não mesmo superá-los.
Deste modo, conclui Bento XVI, o imperador confirmava que a caridade era uma caraterística decisiva da comunidade cristã, da Igreja».
5. Muitas vezes identifica-se a caridade com a esmola, o que pode não ser correto.
Que caridade existe em dar roupa quase nova porque é preciso arranjar no guarda-fatos espaço para roupa mais em consonância com a moda atual? Ou em dar umas moedas a um pobre para se libertar da sua incomodante choraminguice?
6. O serviço da Caridade tanto pode ser exercido individualmente como de forma organizada.
Na sua organização criaram-se instituições como a Caritas e as Conferências de S. Vicente de Paulo.
Importante é que na comunidade cristã, a par do serviço da Liturgia e da Catequese, seja organizado o serviço da Caridade. Que não haja ninguém a passar necessidade.