Tinha oito ou nove anos quando me ofereceram o primeiro álbum Les aventures de Tintin. Não mais descansei enquanto não completei a edição francesa da série de banda desenhada criada por Hergé que desde então me acompanhou e hoje guardo como uma relíquia.
Com o tempo e as (re)leituras, aprendi a apreciar a técnica do artista, a complexidade dos cenários, a qualidade do enredo, o humor dos diálogos, mas também reconheci os exageros nos traços físicos e psicológicos dalguns personagens, certos preconceitos...
Ao longo da carreira, Georges Rémi (1907-1983) foi acusado de veicular estereótipos racistas (Tintin au Congo, 1931), anti-semitas (L’étoile mystérieuse, 1942) e misóginos (Les bijoux de la Castafiore, 1963) ou ainda de dar uma visão truncada das relações Japão-China (Le lotus bleu, 1936) e dos regimes comunistas (Tintin au pays des Soviets, 1930).
Algumas vinhetas foram mesmo suprimidas ou alteradas. Em 2007, um estudante congolês a residir em Bruxelas chegou a intentar uma acção (infrutífera) em justiça com o intuito de proibir a venda de Tintin no Congo. Na Austrália, no Reino Unido, nos Estados-Unidos e noutros países foram levadas a cabo uma série de campanhas contra o mesmo álbum. Nalgumas línguas, a edição contém agora uma nota prévia. Em certos locais, passou a ser considerado um livro para adultos. Noutros, foi pura e simplesmente retirado dos escaparates.
A polémica não é nova. A questão é complexa. O próprio Hergé reconheceu que Tintin au Congo foi um “erro de juventude”, numa época em que banhava na ideologia colonialista belga, bem patente na infantilização das personagens negras assim como na estigmatização da sua compleição física.
Em 1960, Le Canard Enchaîné alertava já os pais para um conteúdo considerado impróprio, embora em 1969 o semanário africano Zaïre defendesse precisamente o inverso, ou seja, a reedição da obra, precisamente pelo teor caricatural que interpela o leitor, a quem cabe ler, contextualizar, decifrar e tomar posição.
Assistimos, porém, hoje ao regresso desta incompressível vontade de cercear, de proibir, de apagar tudo aquilo que não se enquadra nos cânones da ordem ideológica vigente. Em 2015, a universidade de Oxford anulou um debate sobre o aborto, porque algumas alunas consideravam ofensiva a presença de um orador “sem útero” (um homem) no painel.
Em 2017, escandalizam-se as redes sociais porque uma actriz não se apresenta a uma cerimónia de entrega de prémios vestida de negro, em sinal de apoio às vítimas de assédio sexual.
Quase em simultâneo, o realizador Ridley Scott gasta milhões de dólares para apagar do seu último filme Kevin Spacey, entretanto acusado de violências sexuais. Uma das revelações da edição francesa 2018 do concurso The Voice abandona o programa, na sequência das pressões subsequentes à descoberta de tweets que escrevera dois anos antes, aquando dos atentados de Nice.
Cada vez mais, estudantes universitários exigem que sejam banidos certos termos ou expressões, que se retirem dos programas curriculares clássicos da literatura e da filosofia considerados ofensivos para certos grupos ou populações. Não são os exemplos que faltam. Já não roçamos o ridículo; chafurdamos no absurdo. Não educamos para a responsabilidade; infantilizamos as gerações vindouras.
Nas últimas férias, encontrei o meu filho Hugo a ler um dos meus álbuns preferidos de Hergé. Por breves instantes, mergulhei na minha meninice, recordando o prazer que me dava ler e reler cada um daqueles histórias.
Desde 1929, Les aventures de Tintin foram editadas em meia centena de línguas oficiais e quase outros tantos dialectos e línguas regionais, com mais de 230 milhões de exemplares vendidos. Fizeram sonhar milhões de crianças e regressar à infância milhões de adultos. Fizeram regressar à infância, mas quero crer que não infantilizaram.
O perigo não está nos livros, mas numa sociedade que nos convida a não pensar, que tudo faz para aniquilar posições divergentes e limitar a nossa capacidade de reflexão.
Autor: Manuel Antunes da Cunha