O poder podia ser utilizado para unir, para aproximar. Não é o que acontece. Se calhar, nunca foi capaz de o fazer, mas hoje é evidente que a sua utilização só tem servido para desunir, guerrear, distanciar mais e mais. Os chefes dos grandes países falam na primeira pessoa – eu faço isto isto, eu faço aquilo –, com uma prepotência que não serve a paz, antes pelo contrário. Atente-se nos conflitos que hoje acompanhamos nos noticiários. Os poderosos atacam os que sabem que não têm condições de se defenderem, indiferentes às consequências das bombas que lançam contra as cidades dos países que consideram inimigos. Assassinatos indiscriminados de pessoas indefesas que nada fizeram de mal, que viviam a sua vida de trabalho ou tratavam da família e se vêem, de um momento para outro, no meio de uma contenda que não provocaram, que não desejam e que lhes destrói o sossego e a vida. Atrocidades sem conta, a cada dia, a todo o momento, pela calada da noite, covardemente, traiçoeiramente. Povos dizimados, numa réplica, ainda que de contornos diferentes, do que foi aquilo que a história do século XX registou como genocídio. Estão a acontecer em diferentes partes do planeta e, em concreto, no continente europeu. A diplomacia perdeu importância, não resolve nenhum conflito, não funciona; ganharam mais força os detentores de arsenais bélicos e lucram biliões e biliões os fabricantes de armas. A vida no planeta tem-se tornado mais e mais perigosa a cada dia que passa, para mal de toda humanidade. O planeta que procura a Lua, que quer chegar a Marte, que se interessa pelos planetas mais distantes, que investiga profundamente para fazer crescer a esperança média de vida do homem, está em luta consigo próprio. Alguns poucos poderosos, que os cidadãos do mundo vão elegendo ou permitindo que dominem os seus próprios destinos, estão a ameaçar de forma absolutamente autoritária populações de inúmeros países com direito à sua autodeterminação, alheios aos mais elementares princípios de humanidade e ao direito internacional que os próprios subscreveram e fazem valer quando lhes interessa. Em alguns rostos de governantes do mundo vêem-se ditadores como os de outros tempos que o mundo julgava únicos e inimitáveis. Infelizmente, o mesmo mundo está a constatar que é sempre possível que espécimes parecidos ou ainda piores surjam na cena internacional. O futuro afigura-se negro. O mundo precisa de heróis e governantes de bem e bom senso, não de vilões e ditadores, porque a paz só é possível com os primeiros, nunca com os segundos. Com estes ficamos mais distantes dos objectivos da humanidade, ainda que as tentações homicidas não sejam de hoje nem de ontem e existam desde os primeiros passos do homem neste território que Deus entregou a Adão e a Eva e a toda a sua descendência. Os anos vindouros e a humanidade, apesar da história desta, podiam ser de concertação e paz, uma vez que estas não são consequência da guerra, mas dos próprios seres humanos que habitam o globo em que vivemos e que me melhor conhecemos. Mas, a situação não está fácil. A paz não é compatível com cessares-fogo que servem para novos ataques dos invasores poderosos, com embargos injustos e desproporcionados, com situações críticas de emergência mundial que criam “infernos aqui na Terra”. Na sua autobiografia, o Papa Francisco disse que “a guerra é sempre incompreensível [...] é sempre um massacre inútil” e dirigindo-se aos jovens na mesma obra disse ainda que “loucos movidos por interesses, muitas vezes obscuros, de quem lucra com a violência e espezinha a paz em nome de negócios: por detrás das guerras ‘pelo povo’ ou ‘pela segurança’, existem sobretudo mesquinhos dividendos pessoais, e até políticos”. A continuar assim, com loucos como os que já houve e há, os povos tendem a ficar cada vez mais distantes.
Cada vez mais distantes
Luís Martins
19 maio 2026