Alguém, de certa vez, vendo-me na rua, sem nos conhecermos, abeirou-se de mim e, olhando para a minha forma de vestir, perguntou-me: “O Senhor é padre?” respondi-lhe afirmativamente. E inquiriu: “Mas padre católico?” “Sim, sou”. Olhou-me fixamente e disse: “Se anda assim vestido, tem obrigação de ser santo”. Foi a vez de eu lhe perguntar: “E o senhor, é católico?” “Sim, porquê?” “Se o é, tem obrigação de ser santo”. Ficou perplexo. E comentou: “Essa é boa!”
“Não é boa nem é má, respondi-lhe, é o que deve ser”. Fixou-me de um modo desconfiado. Ao que parece, nunca tinha pensado no que eu lhe comentara. Por isso, interpelou-me de novo: “Mas eu não passo dum cidadão vulgar. Vivo o meu dia a dia normalmente. Não chamo a atenção, por exemplo, no modo de vestir, como o senhor Padre, nem posso fazer o que o meu amigo faz: confessar, dizer missa, etc....”.
Interrompi-o. “O meu amigo tem uma profissão?” “Claro, trabalho num escritório todos os dias, muitas horas…”. “E fá-lo com honestidade, procura que o que tem obrigação de fazer seja bem feito?” “Evidentemente, mas isso leva-me a ser santo?” Expliquei-lhe que Deus, nosso criador, nos deu a possibilidade de realizar as obrigações profissionais, de um modo o mais perfeito possível, exigindo, certamente, da nossa parte, o esforço correspondente para que o que depende de mim seja bem feito e corresponda ao que da sua realização se espera como fruto.
Fixou-me com uma certa perplexidade. “Mas isso santifica-me?” Inquiriu. “Certamente”, observei. Claro que Deus tem presente as nossas capacidades. Àquele que pode apresentar, com o seu trabalho, uma obra mais perfeita, de acordo com as suas possibilidades, Deus agradece-lhe e fica satisfeito pelo esforço por ele despendido. E o mesmo, com alguém com menor capacidade, que luta por fazer o que deve”. “Mas este também se santifica?”, perguntou com certa curiosidade. “Com certeza. Deus é justíssimo e perfeito nos seus juízos. Por isso, premia cada um de acordo com as suas capacidades...”
“Senhor Padre, pense bem. O senhor está a dizer que toda a gente é chamada a ser santa por Deus...” Exactamente... Mas há outro aspecto que eu lhe queria apresentar. Deus quer que cumpramos as nossas obrigações de todos os dias, conforme as possibilidades de cada um. Mas só aceita o que é feito com honestidade. Por outras palavras: Deus nunca premiará como mérito de santificação o trabalho dum carteirista exímio...” “Isso compreendo-o bem. Mas o que me disse sobre a santificação de cada um no seu dia a dia, normal e corrente, é uma perspectiva que me anima. E o senhor padre também acha que a nossa santificação está relacionada, por exemplo, com a vida familiar?”
“Com certeza. Todo o trato com as pessoas da família que alguém constrói deve ter presente que com quem fala, com quem vive, com quem compartilha a sua intimidade, os seus bens materiais, enfim, toda a sua vida, é fonte de santificação, se se encarar o matrimónio como uma expressão da vocação cristã. Deus dá graça, isto é, uma ajuda generosa e apropriada, para que tudo aquilo que ele exige a quem se casa possa enfrentar e realizar da melhor maneira, tendo em conta o modo como lida com os familiares, que deve ser cordial, íntimo e sempre abundante de caridade.”
“Senhor Padre, o que me diz surpreende-me, mas obriga-me a repensar a forma como lido com a mãe da minha mulher, que foi viver para a minha casa desde que enviuvou…”