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Ter ou não ter

1. É célebre a frase de Shakespeare "Ser ou não ser, eis a questão" (To be or not to be, that is the question), colocada nos lábios de Hamlet. Hoje, porém, a questão está em ter ou não ter; ter ou não ter bens materiais, dinheiro, um bom padrinho.   2. O nome é fictício mas o facto que vou narrar é verdadeiro. Havia na aldeia um indivíduo por quem ninguém dava nada. De quem ninguém fazia caso. Era o Tónio da Laurinda. Um dia o Tónio da Laurinda decidiu emigrar. Trouxe dinheiro. Construiu vistosa casa. Comprou automóvel. Toda a gente se esqueceu do Tónio da Laurinda para cortejar o senhor António Ribeiro. E aquele mesmo indivíduo, de quem anos antes ninguém fazia caso, passou a ser alvo de atenções que antes lhe tinham sido recusadas. A pessoa era a mesma. Simplesmente, antes andava a apanhar beatas de cigarros para manter o vício do fumo; agora tirava umas fumaças do charuto. Antes não tinha dinheiro; agora, tinha.   3. Continua a dizer-se que as pessoas valem pelo que são e não pelo que têm. A verdade é que, quem não tiver… não passa do Tónio da Laurinda Embora proclamem o contrário. Uma coisa é falar da opção preferencial pelos pobres e outra, demonstrá-lo com atos. Queiramos ou não, em muitos locais a importância da pessoa está no ter e não no ser. Queres que te diga quanto vales? Mostra-me quanto tens; mostra o que tens e onde.   4. O dinheiro faz falta. Não tenhamos ilusões. Sem dinheiro (próprio ou alheio) não se vive. Mas o dinheiro deve ser honestamente adquirido. Há dinheiro que deveria queimar as mãos de quem o maneja. Há dinheiro adquirido à custa da exploração das pessoas, da sua coisificação, do tráfico de seres humanos, de negociatas tudo menos sérias, de várias formas de vigarice. Em muitos casos, em vez de se classificar como rico o indivíduo que o possui, deveria usar-se o qualificativo de ladrão ou de vigarista.   5. Além de honestamente adquirido, o dinheiro deve ocupar o lugar que lhe compete numa correta escala de valores. Deve ser tratado como meio e não como fim. Como forma de adquirir bens de ordem superior. Para servir a pessoa e não para a dominar. 6. Honestamente adquirido e devidamente valorizado, o dinheiro deve ser usado de forma solidária e não egoísta. Deve ser posto ao serviço da promoção integral de quem o possui e de outras pessoas. Quem tem muito deve saber partilhar com quem não tem o necessário para poder viver com dignidade. O que se gasta em luxo e em despesas supérfluas é dos pobres. Em vez de, com o dinheiro, acumular bens para seu deleite pessoal, no uso do dinheiro deve ser tida em consideração a sua função social. Tem havido pessoas que, com a sua fortuna, constroem ou sustentam úteis equipamentos sociais de que a comunidade usufrui.   7. Saber usar o dinheiro é coisa que muitas vezes não acontece. Há pessoas a quem o dinheiro sobe à cabeça. Endeusam-se e exigem que outras as idolatrem. Julgam-se superiores. Abusam de quem precisa. São indelicadas no trato com os outros. Esquecem-se de que a verdadeira grandeza está na dignidade de seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus que todos possuímos, independentemente do volume da conta bancária. Ter dinheiro não confere o direito de escravizar os outros, de os humilhar, de lhes falar com grosseria, de se servir deles. Ter dinheiro não confere o direito – que ninguém tem, embora se pense o contrário – de faltar à verdade, de cometer injustiças, de fazer malcriadices.   8. Ter ou não ter dinheiro ou padrinhos influentes, eis a grande questão que se coloca nos tempos de hoje. Dela depende o tratamento a dar às pessoas. Infelizmente. Por isso se atua como se uns fossem cidadãos de primeira e outros de segunda. Como se uns fossem mais filhos de Deus do que outros. O que é uma indignidade e uma injustiça.
Autor: Silva Araújo
DM

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1 fevereiro 2018