Na aldeia dos meus pais, quase não se fechava a porta de casa a chave. Verdade seja dita, as pessoas raramente se ausentavam muito tempo ou para longe, a não ser quando emigravam. O mundo inteiro cabia na palma da mão. Uma dúzia de certezas guiavam a existência. Na aldeia dos meus pais, quando se recebia alguém de fora, partilhava-se o melhor que havia lá em casa. Também é verdade que os forasteiros nunca vinham de muito longe ou então eram conhecidos de gente mais íntima. Na aldeia dos meus pais, o tempo era linear, as convicções arreigadas e a diferença quase invisível.
Na aldeia global, trancas na porta. Verdade seja dita, é tal o número de comunidades com discursos dissemelhantes que o mais fácil é perdermo-nos no labirinto das identidades. O mundo das redes sociais desdobra-se em universos paralelos. Navega-se ao sabor das emoções. Na aldeia global, apenas se abre a porta a quem pensa como nós, varrendo-se quase sempre os restantes para a geena da indiferença e/ou do desprezo. Também é verdade que os discursos são cada vez mais contundentes, dando pouco espaço a um real diálogo. Na aldeia global, a velocidade é estonteante, as emoções arrebatadoras e a diferença quase intransponível.
Nem a aldeia dos meus pais roçava a perfeição, nem a aldeia global é um espaço sem qualquer réstia de humanidade. Mas falta-nos hoje a virtude da hospitalidade. Esse primeiro passo, essa disposição de ultrapassar a incerteza que sempre pontua o primeiro encontro com o Outro, aquele que é diferente. Pela hospitalidade, o estrangeiro começa por tornar-se hóspede. Mais tarde, no decorrer da relação, ambos se transformam, sem que isso significa necessariamente abdicar das identidades respetivas. Mas não se fica imune à descoberta da diferença. A abertura ao Outro humaniza-nos.
É hoje, porém, cada vez mais recorrente a promoção de ideologias extremistas, por vezes até em nome de causas estimáveis, outras vezes para difundir discursos de puro ódio. Replicam-se argumentações tendenciosas em nome do legítimo combate à corrupção. Incriminam-se coletividades inteiras a partir de casos específicos, sem ter em conta um secular percurso de discriminação ou então um contexto de profunda desigualdade. Descarregam-se frustrações individuais e/ou reivindicações coletivas no espaço público, imputando ao Outro todos os males. O Outro é aquele que tem uma cor de pele diferente, que vive numa outra cidade ou pais, que professa uma religião que não é a nossa, que aderiu a um ideário político no qual não nos revemos ou que apoia um clube do qual não somos adeptos e por aí adiante...
Não tenho que me rever em todas as opções do Outro. E só pode haver diálogo se houver abertura de parte a parte. Quem destila ódio, não se deixa acolher. A hospitalidade é uma opção profundamente política – no sentido etimológico do termo – e radicalmente diferente que consiste em receber o Outro num encontro que a ambos transforma. A prática da hospitalidade tem vindo a ser desempenhada, há séculos, pela Igreja, e mais recentemente também pelo Estado a partir de uma série de normativos legais e de instituições. Mas precisamos hoje que cada um redescubra uma hospitalidade individualmente encarnada, que a todos questione e nos desafie a sair do conforto das nossas mundividências. Não para renegar quem somos, mas para estarmos genuinamente juntos. A forma como nos referimos e (não) acolhemos o Outro diz bem mais sobre Nós enquanto sujeitos, do que sobre Aquele que é objeto do nosso discurso e da nossa ação.
Autor: Manuel Antunes da Cunha
Sobre a hospitalidade…
DM
18 julho 2020