Ao lermos alguns meios de comunicação portugueses, somos capazes de ficar com uma má impressão deste país que nos viu nascer e nos criou.
As parangonas das primeiras páginas, os artigos de colaboradores habituais e conceituados, enfim, muitas pequenas notícias espalhadas pelas diversas secções, alertam-nos constantemente para casos de corrupção.
Por vezes, as personagens envolvidas são desconhecidas e fazem parte de um mundo difícil de definir, onde a seriedade e a honradez são substituídas por artifícios ou golpes legais alheios às nossas leis da boa convivência e do bom procedimento, que devemos aceitar e respeitar para vivermos numa sociedade sadia, onde as virtudes devem prevalecer sobre condutas menos louváveis.
No entanto, se isso sucede com a “arraia-miúda” – permita-se a expressão –, mais inquietante se torna a problemática quando os nomes envolvidos em acções viciadas ou aparentemente duvidosas quanto à honestidade, envolvem pessoas importantes, membros ou não do governo, deputados ou gestores de empresas ou instituições públicas ou privadas, que deviam dar exemplo de boa conduta e exemplar rigor nos procedimentos das suas acções pessoais e profissionais.
É muito fácil levantar alguma suspeita numa sociedade democrática, onde a liberdade de expressão constitui uma nota do seu bom funcionamento e do seu modo de viver habitual. Ela pressupõe que os cidadãos se respeitem uns aos outros e tenham na verdade das suas palavras o objectivo fundamental de convivência entre si.
Nesta ordem de ideias, uma denúncia deve ser sempre – e só! –, a manifestação de uma verdade e não de uma mera suposição, que mancha a fama de um cidadão. Por vezes, de um modo tão agressivo, que o transforma para sempre, aos olhos dos outros, como alguém a quem foram imputadas umas certas nódoas muito reprováveis.
Embora não provadas e até consideradas pela justiça oficial como inexistentes, constituem sempre uma recordação lastimosa, uma mancha que se colou, de um modo irreversível, ao seu bom-nome.
Será o nossa terra um país onde domina, em todos os sectores sociais e profissionais, nomeadamente nos mais elevados, a gangrena de uma corrupção pestilenta e incurável?
Será ela que preside a uma boa parte das decisões que se tomam, das notícias sensacionais que se publicam, das ocultações intencionais do que “não se deve saber”, da morosidade da justiça ao ter de lidar com processos gigantescos, que sempre descobrem mais pistas para averiguar e são a causa de que se eternizem os processos e nunca mais se enxerguem os julgamentos decisivos?
Oxalá que estas últimas linhas não correspondam de facto à verdade. Que sejam fruto, sim, de um certo gosto fácil pelo sensacionalismo, que exagera os factos, empola as situações e transmite uma ideia muito negra do que nós somos, da sociedade que criámos e onde vivemos.
Mas não deixa de ser preocupante um ambiente de desconfiança e de revelação constante da duplicidade de condutas, entre cidadãos relevantes, que nos transmitem uma imagem muito triste do nosso país nos dias que nos coube viver.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva